Em 2015, Life is Strange nos apresentou a história da simpática estudante Max Caulfield, que retorna até a cidade de Arcadia Bay para cursar fotografia e reencontra sua velha amiga de infância, Chloe Price, durante um evento inusitado em um dos banheiros da Academia de Blackwell. Dois anos depois, tivemos a oportunidade de conhecer o passado controverso de Chloe em Life Is Strange: Before the Storm. No ano de 2018, chegou ao mercado o primeiro episódio de Life is Strange 2, jogo que apresenta uma história completamente nova dentro do mesmo universo da série. Para promover o novo título, foi lançado, de forma gratuita, The Awesome Adventures of Captain Spirit, que serviu como uma espécie de introdução para a nova aventura.

Em Life is Strange 2 acompanhamos de perto a vida dos irmãos Sean e Daniel Diaz. Abandonados pela mãe quando Daniel ainda era muito novo, eles moram com seu pai, Esteban, em uma casa localizada na cidade de Seattle. Devido a diferença de idades, Sean tem suas desavenças com seu irmão mais novo, mas quando o assunto é sério eles conseguem lidar bem um com o outro. Esteban é um imigrante mexicano que trabalha como mecânico e faz de tudo para dar aos filhos a melhor qualidade de vida possível.

Na tarde do dia 28 de outubro de 2016, Sean estava preparando para ir em uma festa na casa de um amigo. Enquanto conversava com Lyla pelo notebook, ele viu, pela janela do seu quarto, seu vizinho Brett criando confusão com Daniel. Sean imediatamente vai ver o que estava acontecendo e acaba agredindo Brett. Segundos depois, um carro de polícia, o mesmo que vimos na abertura do game, chega ao local e um agente desce para, em tese, apaziguar a situação. Com uma abordagem totalmente hostil, o policial acaba disparando um tiro contra Esteban, que tinha acabado de chegar no local. Tal atitude causa um efeito imediato em Daniel, que libera uma forte energia e causa um grande impacto em tudo o que estava próximo dele. Ficando desacordado, Sean pega Daniel e eles fogem do local. Considerados foragidos e perigosos pela polícia, os irmãos iniciam uma longa jornada rumo a Puerto Lobos, no México, cidade natal de Esteban.

No game controlamos Sean, que além de si mesmo agora também precisa cuidar de Daniel. Como nos jogos anteriores, ao longo dos cinco episódios o jogador é obrigado a fazer uma série de escolhas que acabam moldando o rumo da narrativa e, consequentemente, o futuro dos personagens principais e das pessoas que estão à sua volta; o próprio game avisa o jogador para escolher com cuidado. É importante observar que Sean é a principal referência para Daniel, o que significa que o comportamento do irmão mais velho acaba influenciando algumas das ações que são tomadas por Daniel.

Em termos narrativos, cada capítulo possui uma temática diferente, o que deixa a história bem variada. Isso, entretanto, não significa que todos eles possuem o mesmo tipo de consistência. O game deixa uma impressão muito boa em seu primeiro episódio, mantendo-se extremamente interessante no segundo, que tem uma pegada familiar e afetiva muito forte e retrata também encontro de Sean e Daniel com o jovem Chris Eriksen. O terceiro episódio acabou sendo um balde de água fria: com exceção do seu final, o tom narrativo não decola, ficando o jogo até um pouco repetitivo em razão da rotina em que os irmãos estão inseridos. Felizmente os dois episódios finais são ótimos e conduzem bem a história até a sua conclusão, que desta vez conta com quatro possíveis desfechos.

Assim como seus predecessores, Life is Strange 2 é o tipo de jogo que te recompensa pela exploração, não só pelos colecionáveis que estão espalhados pelas áreas, mas pelo cuidado que os desenvolvedores tiveram ao construir cada uma das interações possíveis. Sean sempre faz algum tipo de reflexão quando o jogador o faz interagir com algo no cenário, o que me motivava a gastar grande parte do tempo revirando cada cantinho do ambiente. É com esse tipo ação que o jogador tem uma imersão ainda maior no jogo, podendo saber o que aconteceu com outros personagens que ele encontrou ao longo da aventura, como é o caso do Brody, que sempre atualiza o seu blog com novas postagens.

Diferente de Life is Strange, o controle do poder não está mais na mão do jogador. A principal habilidade de Sean é criar belos desenhos para ilustrar seu diário (e lhe render algumas conquistas). Toda a parte sobrenatural está com Daniel, ficando Sean limitado a escolher se o irmão mais novo deve ou não utilizar seu poder em determinadas situações. Feita a escolha, não há mais como voltar atrás, diferente do jogo protagonizado por Max, onde era possível ver, de imediato, os efeitos de sua escolha e mudá-la. Se o recurso de voltar no tempo diferenciou o primeiro game dos demais adventures point-and-click, Life is Strange 2 entrega uma experiência mais próxima do que vemos em outros jogos do gênero (o que não deixa de ser bom).

A jogabilidade é bem simples: o jogador pode andar pelo cenário com o analógico e interagir com os objetos com os botões do controle. Quando há possibilidade de Daniel usar seu poder, o próprio jogo deixa isso bem claro. Para Sean fazer seus desenhos, usa-se um botão para analisar o ambiente e o analógico esquerdo para que o registro seja feito no diário. Acessando o menu, é possível ver os itens que estão sendo carregados na mochila, mexer no celular do Sean (enquanto ainda houver bateria), ver esboços sobre a localização dos colecionáveis e ler as anotações que Sean faz no seu diário.

Logo quando se vai iniciar o primeiro episódio, o jogo pede para que o jogador selecione qual foi o final que ele escolheu em Life is Strange. Até mais da metade do jogo eu imaginei que a ligação entre os dois títulos ficaria restrita aos comentários dos personagens sobre o acontecido em Arcadia Bay, mas acabei sendo surpreendido no quinto episódio, quando um personagem do primeiro jogo aparece e revela detalhes sobre o que aconteceu após o final do primeiro título da série. Foi uma sacada genial e muito bem inserida no contexto do jogo, intercalando diretamente as histórias desse universo.

Falando agora da parte artística, o game tem um estilo visual muito semelhante aos dois jogos que o antecederam, mostrando que não houve grandes evoluções na parte gráfica. Todavia, isso não impede o game de brindar o jogador com belíssimos cenários; a direção de arte do game é realmente muito bem executada. A trilha sonora mais uma vez está espetacular, abrilhantando toda a experiência que é oferecida. Durante as minhas jogatinas notei algumas pequenas travadas, algo que não percebi nos jogos anteriores. Esse problema pode ser resultante da construção de áreas maiores, o que exige uma maior performance. De qualquer forma, não foi algo que chegou a me incomodar, mas seu registro em uma análise é necessário.

Com episódios lançados entre 2018 e 2019, Life is Strange 2 foi desenvolvido pela Dontnod Entertainment e está disponível para PlayStation 4, Xbox One, Windows, macOS e Linux. Esta análise foi redigida com base na versão do Xbox One.


Considerações finais
Um marco da série Life is Strange é não ter medo de abordar temas polêmicos e atuais em suas narrativas. Enquanto somos obrigados a fazer escolhas complicadas, estamos, ainda que sem perceber, pensando nas temáticas levantadas pelo game. Muitas das vezes, se não fosse pelo game, o jogador talvez nunca pararia para pensar sobre os variados temas que estão incorporados no game. Life is Strange 2 não perdeu essa essência e está recheado de críticas sociais.

Apresentando ao jogador o drama de dois irmãos que ficaram completamente desamparados após um grave incidente, o título apresenta uma história envolvente, variada e com grandes reviravoltas (ainda que tenhamos alguns problemas no episódio três, como comentei anteriormente). O carisma dos personagens faz com que o jogador rapidamente se identifique com a história dos irmãos Diaz, tornando a experiência ainda mais agradável. A jogabilidade segue o mesmo padrão já visto nos demais jogos da série, com mecânicas extremamente simples e de fácil compreensão. Mesmo contando com ambientes mais amplos e uma variedade maior de finais, Life is Strange 2 não conseguiu superar o primeiro jogo da série, mas ainda é um ótimo jogo!

Nota
★★★★☆ - 4 - Ótimo


Veja mais sobre Life is Strange:
└ Análise do jogo Life is Strange
└ Análise do jogo Life is Strange: Before the Storm
└ Análise do jogo The Awesome Adventures of Captain Spirit

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