Tramas policiais e envolvendo crimes ficaram muito famosas na literatura, tendo posteriormente ganhando espaço nos filmes e séries de TV, conforme as mídias audiovisuais foram se popularizando. Um dos maiores nomes desse gênero literário é a escritora britânica Agatha Christie, autora de diversos romances investigativos. O filme espanhol Um Contratempo (Contratiempo, no original) bebe muito dessa fonte e lembra muito os livros da rainha do crime.

O tom de mistério já é visto na cena inicial quando uma senhora muito bem vestida é vista chegando em um prédio e indo até o apartamento do jovem empresário Adrian Doria (Mario Casas). Ao tocar a campainha, ela se identifica como Virginia Goodman (Ana Wagener) e diz estar ali após ter sido contatada por Félix Leiva (Francesc Orella), advogado do empresário. Enquanto Doria terminava de se arrumar, uma reportagem exibida na TV revela que ele está sendo acusado de ter matado a fotógrafa Laura Vidal (Bárbara Lennie). Doria construiu uma carreira de sucesso, tendo expandido recentemente seus negócios para o mercado asiático e vencido um prêmio de empresário do ano, mas tudo agora pode estar indo por água abaixo. Casado e pai, Doria também mantém um relacionamento amoroso com Vidal.

Quando uma das fontes de Virginia no tribunal lhe informa que a acusação teria conseguido uma nova testemunha e que eles provavelmente intimariam Doria para depor naquela noite, ela começa a trabalhar sua estratégia de defesa junto com o seu novo cliente. Virginia é uma renomada advogada criminalista que resolveu aceitar um último caso antes de se aposentar. Com o pouco tempo sobrando para que ela escute e oriente Doria, ela pede para que ele lhe conte todos os detalhes do ocorrido. Doria então revela ter sido desacordado dentro de um quarto de hotel após ter levado uma pancada na cabeça. Ao se recuperar, ele encontrou sua amante morta com uma grande quantidade de dinheiro espalhada pelo chão. A porta estava trancada por dentro e não havia como sair pelas janelas, já que elas estavam lacradas por conta do inverno. Como alguém poderia ter cometido tal crime sem deixar nenhum rastro?

As falas de Doria narrando os fatos para Virginia transformam-se em cenas de flashbacks. Toda vez que encontra brechas no depoimento do seu cliente, a advogada o interroga, fazendo com que Doria acabe revelando mais detalhes. Não demora muito para descobrirmos que a morte de Laura pode ter relação com um acidente de carro em uma estrada deserta no meio de uma floresta, quando Doria e Laura estavam voltando de um encontro. Apesar de não sofrerem nenhuma escoriação, o motorista do outro carro acaba falecendo. Como a BMW de Doria não queria dar partida, Laura arquitetou um plano para encobrir o crime (mesmo que eles não tenham tido um envolvimento direto no acidente, se a polícia chegasse e encontrasse os dois juntos, eles seriam testemunhas do ocorrido e o relacionamento extraconjugal de Doria seria exposto). O que parecia ser apenas uma pequena subtrama acaba ganhando um grande espaço dentro do longa espanhol.

Lançado em 2016 na Espanha, Um Contratempo é aquele tipo de filme onde os mínimos detalhes dizem muitas coisas. Tudo o que estamos assistindo é um relato de Doria, o principal suspeito de ser o autor do crime, a sua advogada. Quem garante que ele está realmente contando a verdade? O diretor e roteirista Oriol Paulo recheou sua obra com boas reviravoltas e um final realmente surpreendente. Enquanto estava assistindo acabei criando várias teorias para o crime, mas a revelação feita no final sequer foi por mim cogitada. Para finalizar, a película conta com uma cena muito parecida com outra vista no clássico filme Psicose (1960), o que me pareceu ser uma homenagem ao cineasta Alfred Hitchcock.


Considerações finais
Um Contratempo é um bom filme para você testar os seus dotes de Hercule Poirot, Sherlock Holmes ou qualquer outro detetive clássico. Será que você consegue desvendar o grande mistério antes da sua revelação? Contando com 106 minutos (1h 46m) de duração, o longa possui um bom desenvolvimento da história e é intenso do começo ao fim.

A narrativa, como você já deve ter percebido, é muito bem construída. Não é um filme inovador, mas executa muito bem tudo o que se propõe a fazer. Os atores entregam ótimas atuações, com um destaque especial para Ana Wagener e sua excelente advogada Virginia Goodman. Para elevar o nível de tensão, o diretor fez muito bem o uso de paleta de cores frias. Este é provavelmente um dos melhores filmes espanhóis do gênero.

Nota
★★★★☆ - 4 - Ótimo


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