Enquanto vivemos, estamos sujeitos a uma série de fatores que podem mudar completamente nossa vida. Muitas das vezes somos pegos de surpresa por situações que nos fazem questionar: “por que isso está acontecendo justamente comigo?”. A trama de O Som do Silêncio (Sound of Metal, no original), filme dirigido por Darius Marder, que também é co-roteirista ao lado de Derek Cianfrance, é construída exatamente em cima dessa perspectiva.

Baterista, Ruben (Riz Ahmed) tem uma banda junto com sua namorada, Lou (Olivia Cooke). Morando em um trailer, os dois ganham a vida percorrendo os Estados Unidos para realizar apresentações em bares e casas de show. Estando atualmente no meio de uma turnê, eles são pegos por um fato que compromete completamente o futuro de suas carreiras: Ruben teve uma perda repentina de audição. Após ir até uma farmácia em busca de alguma solução, o músico sai do estabelecimento com um encaminhamento médico. Durante um teste, o protagonista não conseguiu identificar 70 a 80% das palavras que lhe foram ditas.

Algo que poderia melhorar o seu quadro seria realizar implantes que passam pela cóclea, mas o procedimento tem um valor elevado e não é coberto pelos seguros de saúde. Enquanto não pode arcar com esse tipo de solução, Ruben precisa eliminar qualquer tipo de exposição a barulhos muito altos, para preservar o pouco de audição que ainda lhe resta. Falar isso para uma pessoa que depende da música para sobreviver é algo complicado, não é mesmo? O baterista não segue o conselho do médico e continua realizando shows junto com Lou, que até então não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo com o seu namorado. Lou só descobre o problema de audição de Ruben quando ele abandona uma apresentação por não estar escutando nada.

Ao tentarem conseguir ajuda, o casal recebe a recomendação de uma comunidade de reabilitação para surdos, local em que Ruben poderia aprender a língua de sinais e formas de lidar melhor com a sua nova condição.  Para ficar no local, o ele precisa abrir mão de algumas coisas, como não ter nenhum tipo de contato com o mundo exterior. Tendo se envolvido com drogas no passado, Ruben provavelmente já vivenciou algo do tipo. Depois de conversar com a namorada, o protagonista decide ficar no local. Ele então começa a ter contato com as outras pessoas da comunidade e passa a frequentar uma sala de aula infantil. Apesar de todas as restrições do local, o personagem acaba encontrando uma forma de ter notícias da namorada e não desiste da ideia de tentar contornar o seu problema de outra maneira.

Quem comanda o abrigo para os surdos é Joe (Paul Raci), um alcoólatra que perdeu toda a sua família em razão do seu vício. Ele é uma pessoa altamente acolhedora e incentiva Ruben a permanecer no local para aprender a língua de sinais, mesmo o protagonista tendo externado que não buscava uma forma de lidar com a falta de audição, mas sim realizar um tratamento para voltar a conseguir escutar. No entanto, Joe sabia que Ruben precisava ter contato com pessoas semelhantes a ele para conseguir ter um estilo de vida adaptado a sua nova realidade.

Um aspecto que chama bastante a atenção no longa-metragem são os seus efeitos sonoros. Através deles, temos uma sensação imersiva extremamente bem construída, nos possibilitando sentir o desespero e a angústia de Ruben ao não conseguir compreender as falas das outras pessoas nem distinguir os sons daquilo que está ao seu redor. Foi uma forma extremamente eficaz de transmitir o drama do personagem para além da tela; quando é algo que também podemos sentir, a situação ganha uma outra perspectiva.


Considerações finais
O Som do Silêncio é um filme sobre se adaptar, recomeçar, aceitar e seguir em frente. Depois de perder parte considerável da sua audição, Ruben precisa encontrar novos propósitos, ficar lamentando o ocorrido só tornariam as coisas ainda mais difíceis. Sua carreira musical foi totalmente comprometida, mas isso não necessariamente é o fim de tudo. Por mais que seja um longo caminho, o protagonista precisa encontrar a sua paz: Ruben é uma pessoa determinada e fará de tudo para tentar alcançar seus objetivos, ainda que o resultado final não seja exatamente aquilo que ele imaginava.

Além do primoroso design de som, o trabalho excepcional de Riz Ahmed também merece ser destacado. Antes de gravar o longa, o ator fez aulas de bateria por seis meses e aprendeu a língua de sinais dos EUA. Não é um papel fácil de ser desempenhado, mas Ahmed mandou muito bem. Destaques também para as atuações de Paul Raci e Lauren Ridloff. Lauren, inclusive, é surda na vida real e vem se destacando por interpretar personagens com deficiência auditiva. Embora não tenha uma trama muito elaborada, a película passa por um mix de sentimentos que proporciona uma experiência que vale a pena ser conferida.

Nota
★★★★☆ - 4 - Ótimo


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