Análise do jogo Assassin’s Creed Black Flag Resynced

Black Flag é com razão um dos jogos mais queridos da franquia Assassin’s Creed: refinando mecânicas já conhecidas, o título apresentou uma mistura de ação em terra e simulação de navios equilibrada e que funcionou muito bem. Considerado por muitos como o melhor game da chamada era clássica da série, a jornada de Edward Kenway agora está de volta, reconstruída do zero na versão mais recente do motor gráfico Anvil, o mesmo utilizado em Shadows. Assassin’s Creed Black Flag Resynced apresenta não apenas gráficos aprimorados, mas também melhorias na jogabilidade e uma narrativa expandida; é uma versão refinada de algo que já era ótimo.

Caso você não conheça do que se trata o jogo, farei uma breve contextualização. Edward Kenway deixou sua esposa na Inglaterra para tentar a sorte como corsário; seu objetivo era ganhar bastante dinheiro para oferecer uma melhor qualidade de vida à sua família. Antes de partir nessa aventura, o consumo elevado de bebidas por parte de Kenway provocou um profundo desgaste em seu casamento, fazendo com que sua esposa até mesmo saísse de casa. Edward até começa a trabalhar de forma legal, mas sua ganância o leva a embarcar no arriscado mundo da pirataria, onde as coisas são conquistadas com base na força e a morte parece estar sempre à espreita.

O game começa em junho de 1715, com o navio de Kenway sendo destruído durante um confronto. Ao nadar até a praia de uma ilha próxima, o protagonista se depara com o assassino Duncan Walpole, que estava na embarcação rival e tenta, sem sucesso, matá-lo. Após derrotar o assassino em um confronto, Edward encontra um cubo com uma gota de sangue dentro e uma carta revelando que Duncan tinha um encontro marcado com o governador de Havana para receber uma recompensa. Como a identidade do assassino era desconhecida, o pirata toma posse de sua roupa e encontra uma forma de ir até Havana atrás do pagamento. Chegando lá, ele descobre que Walpole estava traindo sua ordem e planejava se juntar aos Templários.

Edward claramente sabia os riscos que assumir a identidade de outra pessoa poderiam lhe trazer, e não demora muito para descobrirem que ele não era Duncan. Antes, porém, ele tomou conhecimento que os Templários estavam tentando encontrar a localização do Observatório, um local que possui um dispositivo capaz de monitorar qualquer pessoa. Caso conseguisse chegar até esse local, ele poderia vender tal dispositivo e se tornar um homem extremamente rico. Enquanto tentava escapar do domínio dos Templários, Kenway faz amizade com Adéwalé, um pirata africano que acaba se tornando um grande aliado. Após conseguir um novo navio, Edward nomeia Adé como seu quartel-mestre e, juntos, eles passam a navegar pelas Índias Ocidentais enquanto o protagonista tenta obter informações sobre o paradeiro do Sábio, um homem que supostamente sabe a localização do Observatório.

A campanha de Black Flag é muito bem desenvolvida e conta com a presença de personagens marcantes, como o Barba Negra e James Kidd, duas pessoas com quem Kenway desenvolve vínculos mais profundos. A narrativa nos reserva algumas reviravoltas surpreendentes, com aliados se tornando inimigos e alianças improváveis surgindo. Caindo de paraquedas nessa disputa entre Templários e Assassinos, Edward a princípio pouco se importa com o que cada um defende e foca apenas em obter ganhos financeiros, mas, com o desencadeamento de alguns acontecimentos, o protagonista inicia uma espécie de jornada de redenção. Confesso que foi uma experiência muito positiva poder reviver todos esses acontecimentos quase doze anos depois de ter jogado o game original; a história segue tão boa quanto eu me lembrava.

Algo que se percebe logo nos primeiros minutos é como a jogabilidade está bem mais fluida, seja nos momentos de parkour ou no combate. Edward consegue escalar com facilidade uma variedade de estruturas e agora pode pular e agachar em qualquer momento. O combate, focado em ação e reação, apresenta mecânicas voltadas para aparar ataques inimigos, contra-atacar, romper a guarda dos oponentes e esquivar de golpes que não podem ser bloqueados. Podemos executar golpes normais ou pesados, derrubar ou empurrar inimigos para deixá-los vulneráveis e rolar sobre eles.

Os momentos de combate são relativamente simples, tendo o grau de dificuldade aumentado quando é preciso lidar com vários inimigos ao mesmo tempo. Ficar pressionando repetidamente o botão de ataque acaba não se tornando algo funcional, já que os NPCs passam a se esquivar e realizar contra-ataques. Adversários mais fortes bloqueiam a maioria das ações com as espadas, fazendo do revólver uma ótima forma de atordoá-los. A maior decepção nesse ponto é a falta de variedade dos inimigos. Velhos conhecidos, como o dardo de sono, o dardo ensandecido e a bomba de fumaça também marcam presença. Uma ferramenta extremamente versátil é o dardo e corda: ele serve para quebrar a defesa de um oponente que estiver mirando em Kenway com uma arma de fogo, puxar inimigos na nossa direção, além de servir para enforcar os adversários, proporcionando eliminações silenciosas.

Agir furtivamente segue sendo tão bom quanto nos jogos clássicos, bastando um assobio para atrair os oponentes a uma morte silenciosa com a lâmina de pulso, podendo inclusive realizar execuções duplas se dois adversários estiverem próximos. A vastidão da vegetação alta pelos ambientes facilita esse tipo de abordagem. Há, porém, o retorno de um velho problema: a inteligência artificial dos inimigos. Houve algumas melhorias: se a ação de assassinar alguém no arbusto for vista por outro inimigo, ele ao menos irá até o local investigar o que está acontecendo. Por outro lado, depois de ser visto, em várias ocasiões consegui despistar os inimigos simplesmente andando agachado em um mesmo arbusto. Os oponentes até me procuraram, mas rapidamente se dispersaram para realizar uma busca mais ampla. Os ouvidos dos NPCs também não parecem ser muito aguçados quando agimos em suas costas, oportunidade em que pude correr normalmente e saltar de telhados diretamente no chão sem chamar a atenção.

O navio do protagonista, chamado de Gralha, tem grande importância ao longo da aventura e pode ser melhorado em diversos aspectos, desde que se tenha os materiais necessários e que desbloqueemos novos níveis da Capitania do Porto. Os elementos de RPG em Assassin’s Creed Black Flag Resynced também marcam presença na criação de itens, permitindo o aumento da vida do protagonista e a realização de pequenas melhorias nas armas, como o aumento da munição e dos armamentos carregados, além de estender o prazo de duração dos efeitos dos dardos.

Em alto mar, temos a liberdade de controlar a velocidade da embarcação e realizar ataques contra outros navios e barcos. Tempestades de ciclone e grandes ondas podem acontecer e, se não tomarmos cuidado, causam danos ao Gralha. Em momentos de confronto, é possível fazer disparos de canhão pela proa, soltar barris flamejantes pela popa, acionar os canhões laterais e utilizar o morteiro para ataques a longa distância. Conforme progredimos, desbloqueamos a possibilidade de efetuar disparos secundários com essas armas, podendo provocar ainda mais danos. Já quando o Gralha está sob ataque, dar um comando para a tripulação se proteger reduz o nível de dano sofrido pelo navio.

Durante a campanha existem momentos em que é preciso abordar certos navios, mas não necessariamente é preciso entrar em confronto contra eles, chamando a atenção de aliados que estiverem por perto. Edward pode sorrateiramente ir nadando ou mergulhando pelo mar, subir na embarcação e eliminar todos que estiverem a bordo. Esse tipo de abordagem facilita bastante as coisas se você não se habituar com o combate naval. Já em outros casos não há escolha, é preciso ir para o confronto, fazendo o nível de procurado aumentar. Ao render um navio rival, temos três opções de escolha: enviá-los à frota Kenway, reparar os danos do Gralha ou diminuir o nível de procurado. Quando um navio está na frota Kenway, ele pode ser direcionado para realizar ataques em pontos específicos do mapa em busca de recompensas. Já o nível de procurado também pode ser reduzido subordinando oficiais nos portos.

Além das missões principais, outras atividades disponíveis são as caçadas templárias, contratos de assassinato, missões secundárias e contratos navais. Também é possível participar de jogos nas tavernas, procurar baús em navios naufragados submersos, caçar tubarões e tomar fortes, mas definitivamente não é algo que você precisa completar, estando ali basicamente como um complemento. O remake é mais direto em sua história, sem recorrer a distrações, o que é ótimo. Os momentos ambientados no presente no prédio da Abstergo, o que considerava ser o maior ponto fraco da versão original, felizmente foram deixados de lado e substituídos por recompensas desbloqueadas no Animus conforme se coleta arquivos de dados pelo mundo, algo que, na prática, acrescenta pouco ao jogo.

Assassin’s Creed Black Flag Resynced conta com novas missões, com destaque para um arco narrativo inédito que se inicia após os créditos finais, prolongando um pouco a aventura de Edward e fazendo o protagonista ter contato com novos personagens que podem ser recrutados para o Gralha, desbloqueando ainda mais opções no navio. A entrada desse novo arco de missões e a retirada de trechos tediantes na Abstergo foi um acerto e tanto por parte da Ubisoft. Outras ausências são a expansão Freedom Cry e um modo multiplayer.

Um outro ponto no qual o remake se destaca são os aspectos audiovisuais. Black Flag Resynced conta com uma construção de mundo extremamente detalhada, vibrante e bonita, seja quando estamos em terra ou no mar, consagrando-se como um dos jogos mais bonitos da atual geração de consoles. As animações da água no mar me deixaram impressionado, seja nos momentos de calmaria ou nas tempestades com o mar extremamente agitado e ameaçador. As animações corporais e faciais também estão muito bem-feitas e o nível de destrutividade dos cenários chama a atenção. A parte visual é acompanhada por ótimas faixas musicais e efeitos sonoros de qualidade. Não posso deixar de destacar o quão boas são as músicas cantadas pela tripulação do Gralha durante a navegação. O título passou por uma nova dublagem, com a versão brasileira estando bem superior àquela vista no jogo de 2013.

Diferente da versão original, que era dividida em sequências de memória, em Resynced temos um estilo de jogo contínuo. Ocasionalmente desbloqueamos um ou outro troféu indicando a conclusão de alguma memória, mas isso é a exceção, não a regra. Na maior parte do tempo essa ideia de gameplay sem interrupções funciona bem, mas em outros parece ter faltado um cuidado maior. Durante um momento específico, fui guiado até um ponto do mapa onde havia dois navios para serem atacados. Após destruir o primeiro deles, o gameplay foi abruptamente interrompido enquanto atacava o segundo para, instantes depois, iniciar uma cena em um local bem diferente de onde eu estava. Teria funcionado melhor marcar no mapa o local inicial da missão, como acontece nos demais casos, do que ter adotado esse tipo de transição estranha.

Praticamente todo game de mundo aberto apresenta bugs, e aqui não é diferente. Me deparei, por exemplo, com o corpo de inimigos apresentando comportamentos estranhos logo após uma execução, mas nada que interrompesse minha jogatina ou me obrigasse a recarregar o último ponto de salvamento. Joguei Black Flag Resynced no modo desempenho, que prioriza uma alta taxa de quadros em vez da qualidade da imagem, e o título apresentou uma performance dentro do esperado, sem quedas de FPS durante as mais de 30 horas que passei jogando.

Assassin’s Creed Black Flag Resynced será lançado amanhã para PlayStation 5, Xbox Series e PC. Esta análise foi feita com base na versão de PlayStation 5 com uma cópia fornecida pela Ubisoft Brasil.

Considerações finais

Não sei se um remake de um jogo de 2013 era realmente necessário, mas o fato é que Assassin’s Creed Black Flag Resynced consegue replicar com perfeição a ótima experiência proporcionada pela versão original, modernizando mecânicas, trazendo novidades que expandem o universo do game e eliminando trechos que pouco acrescentavam à jornada de Edward Kenway. É um jogo extremamente divertido, tanto para os novatos quanto para quem vai revisitar os mares do Caribe.

Visualmente impressionante, Black Flag Resynced entrega um mundo vivo e que se transforma de acordo com as mudanças climáticas. Agindo furtivamente ou indo para a ação, o jogador conta com múltiplas opções para serem utilizadas. É uma pena que essa variedade também não seja vista nos tipos de inimigos, que, assim como em outros jogos da franquia, não são lá muito inteligentes. Após concluir o game, saí com uma sensação tão boa quanto a que tive em 2014, quando finalizei a aventura de Edward pela primeira vez.

★★★★☆Ótimo
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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