Análise do jogo Marvel’s Wolverine

Depois de ter lançado nos últimos anos três jogos de mundo aberto ambientados no universo do Homem-Aranha, a Insomniac Games resolveu apostar em algo diferente com outros personagens da Marvel: os mutantes. A mudança não se resume à troca das teias pelas garras de Logan, Marvel’s Wolverine adota um tipo de estrutura diferente, apresentando uma proposta de progressão linear e narrativa cinematográfica, o que não chega a ser uma novidade quando olhamos para outros jogos exclusivos do PlayStation. Quando se tem Uncharted e The Last of Us brilhando nesse mesmo campo, o grau de exigência acaba sendo maior. Será que a Insomniac conseguiu entregar um título à altura do que era esperado?

Embora conte com personagens do vasto universo dos X-Men, a equipe comumente guiada pelo Professor Xavier não existe no jogo. O título inicia com um flashback mostrando o geneticista Nathaniel Essex encontrando e recrutando Logan para a Equipe X, um grupo criado para garantir a segurança de mutantes ao redor do mundo. Somos então apresentados a eventos no presente: Wolverine, Dentes-de-Sabre e Mística estão em uma missão para resgatar Essex de uma instalação pertencente a Bolivar Trask, um magnata da tecnologia conhecido pelo trabalho polêmico em robótica militar e que está determinado a exterminar os mutantes.

Retornando com segurança ao Instituto Essex, no Canadá, logo surge uma nova missão: resgatar um grupo de mutantes no norte de Vancouver que está sendo atacado pelos Reavers, mercenários pagos por Trask. Em virtude de a tecnologia de Trask para detecção de mutantes ser melhor do que a da Equipe X, Essex e seus parceiros estão um passo atrás nesse quesito. É nesse ponto que Jean Grey entra na história: os mutantes em questão eram seus amigos e ela estava tentando salvá-los. Concluído o resgate, ela e os demais também vão para o Instituto Essex, um local que logo se mostra não ser tão seguro como todos imaginavam.

Jean possui uma grande importância na trama e exerce praticamente um papel de coprotagonista. Ela não apenas é capaz de conter Logan nos seus momentos de maior fúria, como também o ajuda a ter uma visão ampla sobre tudo o que está acontecendo. À medida que precisam lidar com problemas em diversas partes do mundo, a história de amor de Logan e Jean vai se tornando cada vez mais forte e intensa, culminando com um desfecho impactante. No geral, gostei da forma com que o enredo foi desenvolvido e da maneira que os personagens se encaixam na história. Após finalizar o título, fica claro que a Insomniac planeja seguir explorando este universo: se Marvel’s Wolverine tem como missão preparar uma base para o que vem por aí, acredito que, do ponto de vista narrativo, o estúdio fez um bom trabalho.

Um dos aspectos que eu mais estava ansioso para conferir era a jogabilidade durante os combates. Como esperado em um jogo do Wolverine, os confrontos são viscerais, sangrentos e bastante satisfatórios. Fazendo uso de suas garras, Logan possui dois botões básicos de ataque, um voltado para golpes leves e o outro para pesados. Esses botões também podem ser utilizados para chutar os oponentes e realizar saltos até um inimigo próximo. Ainda podemos aparar ataques dos adversários e desviar de ações indefensáveis. Pressionando o botão L2, temos acesso a até quatro técnicas especiais que se recarregam com o tempo após serem usadas, algo semelhante ao que foi feito nos games do Homem-Aranha. À medida que ações ofensivas e defensivas são realizadas com precisão, mais rápido a barra de fúria carrega, o que possibilita ataques mais fortes e, em seu nível máximo, a execução de golpes críticos e finalizações letais. Outra utilidade da barra de fúria é a capacidade de reviver o protagonista quando somos derrotados em batalhas.

As lutas se tornam frenéticas quando é preciso lidar com vários adversários ao mesmo tempo. Além da desvantagem numérica, muitas vezes os inimigos são capazes de executar ações coordenadas, tornando os confrontos mais desafiadores. Essa situação pode ser contornada matando o líder do grupo, que é facilmente identificado em meio aos seus parceiros. Os confrontos contra os chefes são legais e apresentam divisões por atos, assim como em Marvel’s Spider-Man, com pequenas variações até a conclusão. Esses embates exigem um grau maior de atenção, já que é preciso compreender as ações do adversário para saber quando esquivar, defender e atacar. Depois de me acostumar com os comandos, não tive grandes problemas até atingir a conclusão jogando na dificuldade normal.

Se por um lado o jogo se destaca pelas mecânicas de combate, há outros aspectos na jogabilidade que deixam a desejar. Existem trechos em que Logan pilota uma moto e a falta de precisão dos comandos acabou me incomodando. Além de não sentir que estava efetivamente tendo total controle do veículo, em um desses momentos é preciso atacar inimigos que também estão guiando motos, resultando em algo bastante desengonçado; tive a sensação de que faltou um maior polimento nestes segmentos. Durante os combates, houve ocasiões em que a câmera não entregava a melhor visão disponível, exigindo que eu fizesse o ajuste com o analógico. Marvel’s Wolverine conta com quick time events, o que por si só não acho que seja um problema, mas alguns deles poderiam não existir, já que apertar o botão errado não faz diferença alguma. Percebi ainda que o game não exige muita precisão do jogador na hora de executar saltos, principalmente durante algumas Portas do Pesadelo.

Falando nas Portas do Pesadelo, elas são atividades que surgem em momentos específicos das fases e oferecem desafios envolvendo combate, travessia e sobreviver a ondas de inimigos. Além de desbloquear lembranças que preenchem lacunas do passado do protagonista, completar esses desafios concede pontos de adaptação e, em alguns casos, novos trajes e garras. Também é possível conseguir pontos de adaptação localizando garrafas de uísque espalhadas pelas fases. Com eles, conseguimos equipar até dez tipos de adaptações, concedendo ao personagem algumas habilidades especiais. Já ao subir de nível ganhamos pontos de técnicas, que podem ser utilizados para desbloquear novos movimentos de combate e aprimorar as técnicas especiais. Pelas fases ainda encontramos caixas com materiais, que servem para comprar novos trajes e garras e aumentar a saúde de Logan.

Em se tratando de um título linear, acredito que a Insomniac poderia ter pensado em outra forma de explorar a capacidade olfativa de Logan. Uma escolha com cheiros em locais pontuais ao invés de uma linha contínua talvez tivesse funcionado melhor e favoreceria a exploração dos cenários, principalmente nas áreas mais abertas. A verdade é que quando estamos fora de combate, o jogo oferece pouco ao jogador além daquilo que já está pré-determinado para ser feito. Quer um exemplo? O protagonista consegue, em alguns momentos, realizar longos saltos, mas é incapaz de subir em estruturas baixas, como carros. Gostaria que os ambientes tivessem tido um melhor aproveitamento, nem que fosse com documentos para um maior aprofundamento da trama.

Visualmente, Marvel’s Wolverine é muito bonito e entrega aquilo que esperamos de um exclusivo de PlayStation de grande orçamento. Percebe-se um alto nível de detalhe nos personagens e nos ambientes, seja em trechos lineares ou em áreas mais abertas. Durante a aventura, percorremos locais com características completamente diferentes, algo que fica evidente pelo trabalho de ambientação. O jogo conta com animações fluidas, variadas e bem construídas, e não mede esforços quando o assunto é violência. Preciso destacar também o excelente trabalho desempenhado pelo ator Liam McIntyre ao dar vida a Logan: sua atuação contribuiu muito para transmitir os diversos tipos de sentimentos do personagem ao longo da aventura. A parte sonora não deixa a desejar e conta com ótima trilha sonora, efeitos e trabalho de dublagem, incluindo a brasileira.

Quando comecei minha jornada em Marvel’s Wolverine, o jogo já havia recebido uma atualização e posteriormente acabou ganhando outra. Apesar disso, notei alguns leves bugs, como personagens correndo sem sair do lugar e armas de inimigos abatidos flutuando pelo ambiente, algo que eu até poderia ter relevado se a aventura se passasse em um mundo aberto. Não é nada que chegue a comprometer ou causar algum tipo de problema na progressão, mas é um indicativo de que outros ajustes ainda precisam ser feitos.

Como geralmente faço, optei por jogar Marvel’s Wolverine no modo desempenho, que busca uma taxa de 60 quadros por segundo em detrimento de uma qualidade gráfica inferior. O que encontrei foi um jogo muito bem otimizado no PlayStation 5 base: durante as aproximadamente 20 horas que passei jogando, não notei quedas na taxa de quadros e nem enfrentei nenhum fechamento abrupto.

Marvel’s Wolverine foi lançado em 15 de setembro para PlayStation 5. Esta análise foi feita com uma cópia fornecida pela Sony.

Considerações finais

A estreia da Insomniac no universo dos mutantes é marcada por alguns pontos que valem a pena ser observados. O estúdio obteve êxito na forma com que criou e desenvolveu a narrativa do game, principalmente na construção do relacionamento de Logan e Jean. A jogabilidade, por sua vez, funciona muito bem durante os combates, que são bem divertidos, mas deixa a desejar em outros momentos, seja por ajudar demais o jogador ou pela falta de precisão quando necessário.

Visualmente muito bonito e bem otimizado, fico com a impressão de que o título poderia ter ousado mais, principalmente na exploração. Apesar dessas questões, pesando os prós e contras, a jornada de Logan ainda tem um saldo positivo. Marvel’s Wolverine é um bom jogo, mas representa um passo atrás quando olhamos para o histórico recente da Insomniac Games.

★★★☆☆Bom
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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