Análise do jogo Resident Evil Requiem

Desde o lançamento do seu primeiro título, em 1996, a franquia Resident Evil passou por muitas transformações, adotando diferentes tipos de câmera e oferecendo experiências geralmente voltadas para ação ou sobrevivência. Com Resident Evil Requiem, a Capcom olhou cuidadosamente o histórico construído até aqui e buscou criar um jogo que pudesse agradar a base heterogênea de fãs que a série possui. Para isso, a companhia japonesa decidiu adotar para cada protagonista um estilo de jogabilidade diferente, o que, na prática, funcionou muito bem.

O game começa nos apresentando Grace Ashcroft, uma analista do FBI que está investigando uma série de mortes causadas por uma doença desconhecida. Quando um novo corpo é encontrado no Hotel Wrenwood, ela recebe um pedido de seu chefe para ir até a cena do crime e verificar o que havia ocorrido. Acontece que o local, agora abandonado, não traz boas memórias a Grace, já que sua mãe foi assassinada lá há oito anos. Apesar desse trauma do passado, ela não hesita em aceitar a missão. Enquanto vasculhava a área, a personagem encontra indícios que sugerem que alguém estava monitorando-a há muito tempo. Após recuperar uma pasta escondida por sua mãe e ser atacada por um policial que se transformou em zumbi, Grace é sequestrada por Victor Gideon, um ex-cientista da Umbrella Corporation.

Quem também está investigando essa série de mortes suspeitas é o agente da DSO Leon S. Kennedy. Ao receber a informação de que Victor era suspeito de ter praticado tais atos e que um policial havia desaparecido perto de onde o quinto corpo havia sido encontrado, Leon resolve averiguar o que estava ocorrendo. Antes de chegar ao Hotel Wrenwood, ele se depara com o cientista carregando Grace desacordada nos ombros. Para conseguir escapar, Victor causa um pequeno surto do Vírus T, obrigando Leon a agir para conter a situação. O agente, no entanto, logo recebe a informação de onde poderia encontrar o suspeito: o Centro de Cuidados Crônicos Rhodes Hill, local para o qual o cientista havia levado Grace. É nesse ponto que as histórias dos protagonistas começam a se entrelaçar, com cada um lidando com os próprios problemas e colaborando um com o outro sempre que possível.

Com todos os funcionários do Centro de Cuidados Crônicos tendo se transformado em zumbis, ambos os personagens enfrentam desafios para tentar entender o que está acontecendo. Contando com reviravoltas surpreendentes, a trama de Resident Evil Requiem tem um bom ritmo e é bem trabalhada ao longo de todo o game. Leon dispensa qualquer tipo de apresentação, ao passo que Grace tem uma boa introdução e sua história é desenvolvida de uma forma bastante satisfatória. Enigmático e destemido, Victor é aquele tipo de antagonista que sempre chama a atenção quando aparece em cena. Ao mesmo tempo que faz referências a outros títulos da série, Requiem também consegue ser acessível para os novatos nesse universo.

Resident Evil Requiem adota um tipo de estrutura que alterna entre os protagonistas em momentos pré-determinados, mantendo a jogabilidade sempre envolvente. Sem ter muita força ou habilidades avançadas de combate, os trechos com Grace são focados no terror e sobrevivência: com um inventário extremamente limitado, ela não é capaz de carregar muitas coisas, o que nos obriga a constantemente fazer o gerenciamento do inventário, armazenando na caixa de itens o que não é útil no momento. A analista do FBI tem acesso a apenas duas armas de fogo: uma pistola comum e a Magnum (aqui chamada de Requiem), um revólver extremamente poderoso, ideal para lidar com inimigos mais fortes ou ser usada em momentos de apuro, mas que possui munição extremamente limitada. Ser cauteloso e evitar os confrontos sempre que possível é a melhor opção, principalmente na parte inicial, quando a personagem não possui quase nenhum equipamento.

Além da criação de itens padrão, à medida que vasculhamos as instalações do Centro de Cuidados Crônicos, Grace descobre como utilizar sangue para fabricar itens medicamentosos, balas e injetores homolíticos. Os injetores homolíticos aumentam as possibilidades de abordagem, permitindo realizar eliminações furtivas ou derrotar imediatamente inimigos atordoados, além de impedir que os cadáveres sofram mutações. Com as moedas antigas que encontramos pelo cenário, podemos comprar uma pochete que expande o inventário, esteroides para aumentar a vida, estabilizadores para aprimorar a estabilidade e o dano das armas e um manual de modificação que amplia a capacidade do coletor de sangue. Podemos encontrar ainda injetores vazios, que possibilitam a melhoria dos atributos de Grace por meio da fabricação de esteroides e estabilizadores.

Já no controle de Leon, o jogo adota um estilo de gameplay totalmente focado na ação. Sendo mais resistente e tendo um inventário generoso para guardar uma grande variedade de itens, com ele temos uma ampla liberdade de escolher se iremos eliminar os infectados com revólver, espingarda, metralhadora, rifle de precisão, granadas ou fazendo uso do machado, sem deixar de lado seus chutes que atordoam os inimigos. Outra possibilidade é arremessar itens deixados pelos mortos-vivos em direção a outro oponente. Leon conta com um rastreador tático que registra seus dados de combate, acumulando pontos toda vez que realizamos eliminações. Esses pontos, que também podem ser encontrados em rastreadores de terceiros, podem ser trocados por créditos na caixa de suprimentos, onde é possível comprar e vender itens e melhorar as armas.

Essa dualidade de proposta é executada de forma bastante equilibrada durante toda a campanha. Embora tenha gostado mais dos trechos em que controlamos a analista do FBI, reconheço que o título logra êxito quando o assunto é disparar contra zumbis sem receio algum. A ideia de proporcionar experiências diversas com cada protagonista também é vista nas escolhas padrão de câmeras de cada um: Grace em primeira pessoa e Leon em terceira. Essa definição pode ser alterada individualmente a qualquer momento acessando o menu, oferecendo opções para todos os gostos. Seja qual for o tipo de câmera adotado, ambos funcionam muito bem durante a jogatina, demonstrando o cuidado por parte da Capcom nesse ponto.

O que os trechos de Leon e Grace têm em comum é a necessidade de explorar os cenários em busca de itens para avançar na história. Os documentos que encontramos durante a aventura nos revelam mais detalhes sobre a trama, dão pistas de onde encontrar suprimentos e revelam as senhas de cofres espalhados pelos locais. O jogo não conta com puzzles complexos; o maior desafio reside em revisitar áreas para acessar salas antes bloqueadas, momentos em que algumas surpresas acabam acontecendo. Falando em desafio, o título conta com três opções iniciais de dificuldade: casual, padrão moderno e padrão clássico – sendo que, neste último, os salvamentos automáticos são limitados e é necessário tinta para os saves manuais. Finalizando o game em qualquer dificuldade, o modo insano é desbloqueado.

Alguns zumbis de Requiem guardam resquícios de quem eram antes da transformação e muitos nos dão pistas da forma correta de lidar com eles, como um que fica pedindo silêncio e outro que apaga as luzes sempre que são acesas. Quando estamos jogando com Leon, notamos as criaturas serem mais ativas ofensivamente, arremessando coisas em nossa direção e fazendo uso de armamentos, como uma motosserra. Além desses detalhes, os infectados reagem de forma apropriada de acordo com o ponto atingido pelos disparos que efetuamos. Ao serem derrotados, os corpos e o sangue decorrente dos ataques permanecem no ambiente, mesmo que a área seja posteriormente revisitada com o outro protagonista.

Um outro aspecto no qual o game se destaca é na parte gráfica: o nono título principal da série Resident Evil possui um dos visuais mais bonitos da atual geração. A modelagem dos personagens é detalhada, com cabelos e expressões faciais naturais. Esse cuidado também é visto nos ambientes, o que torna a exploração do Centro de Cuidados Crônicos e da cidade de Raccoon City destruída algo prazeroso. Os cenários escuros, sempre que presentes, conseguem transmitir um ar de apreensão. Essa experiência é complementada por uma ótima trilha sonora, que agrega muito valor ao jogo, principalmente nos momentos de tensão. A dublagem brasileira me agradou muito; no entanto, notei uma variação na pronúncia de Raccoon City, algo que passou despercebido pela equipe responsável.

Nas mais de vinte horas que passei jogando Resident Evil Requiem, não presenciei nenhum bug ou problema técnico que interrompesse minha jogatina. O jogo está muito bem otimizado no PlayStation 5, rodando a 60 fps; notei pequenas quedas na taxa de quadros em momentos pontuais, nada que interferisse na minha experiência. Para finalizar, preciso mencionar que o título faz um bom uso das tecnologias presentes no controle DualSense: o gatilho adaptável variando de acordo com a arma, o sistema de vibração e o áudio que sai do controle são recursos que aumentam a imersão.

Resident Evil Requiem está disponível para PC, Nintendo Switch 2, PlayStation 5 e Xbox Series. Esta análise foi feita com base na versão de PlayStation 5 com uma cópia fornecida pela Capcom.

Considerações finais

Requiem reúne o melhor que a franquia Resident Evil fez nos últimos anos em um único jogo. Apostando em dois estilos distintos de gameplay e dando ao jogador a possibilidade de vivenciar a aventura em primeira e/ou terceira pessoa, a Capcom parece ter encontrado um equilíbrio perfeito de mecânicas, fazendo os momentos de survival horror com Grace serem magistralmente complementados com os trechos de ação com Leon. Esse refinamento certamente é fruto de uma análise profunda de tudo o que a série construiu em seus trinta anos de história.

A jogabilidade, que funciona bem em todos os cenários, é acompanhada de um visual deslumbrante, trilha sonora primorosa e um enredo que se torna cada vez mais interessante conforme descobrimos novos detalhes, apoiado por um elenco de personagens marcante. Se no passado Resident Evil sofreu com uma crise de identidade, com Requiem a Capcom demonstra saber com clareza qual é o caminho ideal a ser seguido.

★★★★★Excelente
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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