Análise do jogo Replaced

Em uma versão alternativa dos Estados Unidos da década de 1980, a corrupta Corporação Fênix chegou ao poder após o país conviver com as consequências de uma catástrofe nuclear. Sediada na cidade de Fênix e almejando o progresso médico e científico, a organização elaborou um esquema perverso para alimentar seus negócios baseados em inteligência artificial, tratando a vida de muitas pessoas como algo descartável. Essa é a proposta cyberpunk por trás de Replaced, título de estreia do Sad Cat Studios. Em desenvolvimento desde 2018, o game foi anunciado em 2021 e, depois de sofrer um adiamento, finalmente está disponível para os jogadores.

Replaced inicia nos apresentando uma explosão em um laboratório da Corporação Fênix, local em que o Dr. Warren Marsh estava trabalhando. Logo após esse evento, a inteligência artificial R.E.A.C.H. assume o controle do corpo de Warren, cientista responsável pela sua criação. Como isso não deveria ter acontecido, Reach está disposto a reverter o processo, mas começa a ser perseguido por agentes que estavam presentes no laboratório e nas suas redondezas. Sem entender o motivo pelo qual as pessoas que poderiam ajudá-lo estavam tentando matá-lo, a única opção que resta ao protagonista é fugir.

Depois de receber ajuda de um homem chamado Tempest, Reach é levado até uma estação de trem fora dos muros da cidade de Fênix, local que serve de lar para um grupo de Descartes. Vivendo à margem da sociedade, os Descartes são pessoas que tiveram seus órgãos retirados para atender às solicitações vindas do alto escalão e basicamente não possuem mais nenhuma utilidade, motivo pelo qual são deixadas à própria sorte em um mundo extremamente perigoso. É justamente em meio a tantas dificuldades que a jornada de Reach vai se tornando cada vez mais interessante, já que ele, sendo uma máquina, é incapaz de compreender os sentimentos humanos. É uma trajetória de autodescoberta, na qual o personagem passa a conhecer as profundas desigualdades geradas pela corporação da qual ele faz parte.

Apresentando um ritmo lento, a narrativa de Replaced é muito bem construída e conta com boas reviravoltas. Para absorver tudo o que esse mundo tem a nos dizer, é preciso coletar os documentos e registros que estão espalhados pelas fases. Abordando eventos do presente e do passado, esses colecionáveis nos dão uma dimensão detalhada de quão cruel a sociedade se tornou. Esporadicamente, acompanhamos flashbacks envolvendo Warren, o que nos ajuda a compreender o passado do cientista e o processo de criação da inteligência artificial. No geral, gostei muito da história, mas achei que Tempest, personagem com quem Reach trabalha junto em algumas missões, acaba destoando da proposta do game. A ideia certamente era trazer um pouco de descontração à trama, e isso até funciona no começo, mas a repetição constante desse tipo de abordagem transforma as suas falas em algo forçado.

Diferente de títulos como Limbo e Inside, Replaced é um jogo de plataforma cinematográfico que conta com momentos de combate. Os confrontos adotam uma proposta semelhante à vista nos jogos do Batman desenvolvidos pela Rocksteady, exigindo ações de ataque, contra-ataque e esquiva enquanto lidamos com vários inimigos ao mesmo tempo. Embora haja oponentes que utilizam escudos e armaduras e outros que são ágeis e desviam dos nossos golpes, não há uma grande variedade de inimigos. Reach até conta com um revólver, mas para efetuar disparos com a arma de fogo é preciso executar corretamente sequências de ataque e contra-ataque. Os trechos de combate são fluidos e apresentam um nível de desafio equilibrado, enquanto as batalhas contra os chefes costumam apresentar um grau maior de dificuldade, mas tudo se resume a entender o comportamento do adversário para saber quando realizar as ações ofensivas.

Já os momentos que envolvem plataforma não são difíceis e nem exigem muita precisão do jogador. Para avançar em muitos trechos, é necessário resolver pequenos quebra-cabeças, nada com um grau de dificuldade avançado. Há casos em que a perspectiva 2.5D dificulta a identificação de locais em que o protagonista é capaz de se apoiar após realizar um salto. Mesmo que a clássica tinta amarela esteja presente, esses pontos do cenário acabam se misturando com os elementos que estão ao fundo, fazendo com que, em alguns casos, descubramos o que fazer com base na tentativa e erro. Há também sequências de furtividade que, com o avançar da narrativa, se tornam mais interessantes devido à possibilidade de o protagonista realizar hackeamentos.

O jogo conta com um sistema de checkpoint que funciona bem na maior parte do tempo, fazendo com que o personagem retorne rapidamente após errar algum trecho de plataforma. No entanto, há ocasiões em que o checkpoint acaba retrocedendo mais do que o necessário, algo que acontece com certa frequência quando falhamos em um combate. Nesses casos, é comum retornarmos um pouco atrás demais, sendo necessário ir novamente até o local do confronto e pular a cena (ou reassisti-la) para efetivamente voltar à ação. Seria muito mais interessante que, em ocasiões como essa, o jogo retornasse ao instante imediatamente anterior ao início do combate.

Achei que o game conseguiu dosar bem os trechos de plataforma, exploração e combate: apesar de não haver grandes variações nos confrontos contra os inimigos, em nenhum momento achei que Replaced se tornou repetitivo ao ponto de ser cansativo. Conforme avançamos, desbloqueamos novas mecânicas, o que torna a jogabilidade mais variada. Enquanto percorremos os ambientes, há casos em que não é possível retornar a uma área anterior, o que pode provocar a perda de colecionáveis, faixas musicais e aprimoramentos. Devido ao fato de não haver uma indicação clara de qual direção seguir, é fácil deixar algo para trás. Em três dos dez capítulos, temos um conjunto de atividades secundárias que podem ser realizadas antes de seguir em frente; são objetivos simples que envolvem ajudar pessoas com pequenas tarefas e superar o recorde de jogos em máquinas de fliperama.

Falando agora dos aspectos audiovisuais, o game do Sad Cat Studios impressiona em todos os quesitos. Apresentando um visual em pixel art que se mistura a técnicas de iluminação modernas, nos deparamos com ambientes belíssimos e extremamente bem construídos. Esse aspecto fica ainda mais impressionante em locais urbanos, com as luzes neon se destacando na paisagem. O título também adota uma pegada cinematográfica, algo que fica evidenciado nas transições de cena e na escolha padrão do formato de tela, com barras pretas em cima e embaixo, recurso que pode ser desativado nas configurações. As movimentações dos personagens são fluidas e bem trabalhadas. Já na parte do som, temos uma excelente trilha sonora eletrônica retrowave que se encaixa perfeitamente com a proposta, com faixas muito bem produzidas. Os demais efeitos sonoros também são de qualidade e possuem parcela importante na imersão do jogador.

Nas mais de 15 horas que passei jogando, não presenciei queda na taxa de quadros e nenhum tipo de bug ou problema que interrompesse minha jogatina. O jogo está bem otimizado no Xbox Series X, embora tenha notado pequenos travamentos durante os salvamentos automáticos em momentos simples, como deslocamentos laterais. Não é algo que chegou a me incomodar, mas que pode ser melhorado. Senti também uma falta de precisão dos direcionais analógicos ao tentar alternar entre os dois planos dos cenários. O game vem recebendo atualizações e espero que esses pontos sejam corrigidas.

Replaced está disponível para PC e Xbox Series. Esta análise foi feita com base na versão de Xbox Series X com uma cópia fornecida pela Thunderful.

Considerações finais

Sendo facilmente um dos jogos independentes com visual mais impressionante dos últimos anos, Replaced apresenta uma narrativa cyberpunk que aborda temas como desigualdade e o valor da vida em uma sociedade em ruínas, que privilegia um grupo seleto de pessoas em detrimento das demais. Sustentada por uma atmosfera sólida e envolvente, a narrativa não é propriamente inovadora, mas tem um bom desenvolvimento, trabalha bem a construção do seu mundo e cria paralelos interessantes entre máquinas e seres humanos.

O ritmo lento e a dificuldade em identificar pontos de apoio em alguns trechos de plataforma, devido ao visual 2.5D, são elementos que merecem ser pontuados. A falta de variedade no combate acaba tornando esses momentos repetitivos; por outro lado, o game sabe dosar bem exploração, plataforma e confronto, resultando em uma experiência equilibrada. Apesar de haver pequenas ressalvas, o título de estreia do Sad Cat Studios consegue entregar uma ótima experiência cinematográfica, que me cativou do começo ao fim.

★★★★☆Ótimo
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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