Análise do jogo Au Revoir

Estamos no ano de 2071. A Au Revoir Ltd. foi a responsável por criar a maior inovação tecnológica já vista até então: o cérebro sintético. Aqueles que possuem condições de pagar pelo serviço prestado pela empresa passam a usufruir da imortalidade, tendo suas consciências humanas preservadas integralmente. A companhia afirma ter uma política bem rígida quanto ao procedimento, de modo que o indivíduo poderá seguir sua jornada após a morte apenas mediante a doação de corpos de terceiros. Em um mundo cyberpunk, quem ousaria duvidar das “boas” intenções de uma mega corporação?
É partindo dessa premissa que em Au Revoir assumimos o controle de Tristan, um homem que ganha a vida trabalhando como Sentinela. Os Sentinelas são os funcionários da Au Revoir Ltd. responsáveis por efetuar o download do cérebro sintético das pessoas após a morte de seus corpos para posteriormente realizar o upload dos dados na sede da empresa. Aparentemente trata-se de um serviço simples, mas isso parece estar afetando de alguma forma a mente do protagonista, já que ultimamente ele vem presenciando situações bastante estranhas. Tristan chega inclusive a relatar isso para sua chefe, mas ela encara a situação com naturalidade e sem demonstrar preocupação, já que a imortalidade virou apenas mais um produto tecnológico.
O jogo efetivamente começa com Tristan recebendo uma solicitação para efetuar o procedimento em um cliente que havia acabado de falecer em um acidente. Depois de seguir todos os protocolos e realizar o upload, o personagem acorda em casa sem ter lembranças de como foi parar lá. Ele então é contatado por sua chefe para atender um novo pedido, mas dessa vez não se tratava de uma coleta normal: o trabalho deveria ser feito em uma área da cidade em que a empresa não tem acesso livre para entrar. Em virtude do sinal no local ser ruim, a localização exata do corpo também não era conhecida. Tristan recebe algumas informações básicas sobre o indivíduo, mas todo o restante deveria ser feito por conta própria, incluindo encontrar uma forma de acessar tal região. Enquanto tenta cumprir sua missão, o protagonista se depara com situações que lhe permitem ter uma visão mais ampla sobre o mundo em que está inserido.
Embora seja simples, a narrativa de Au Revoir é bem desenvolvida e vai ganhando contornos interessantes conforme descobrimos novas informações. O game conta com múltiplos finais, mas as variações no desfecho são decorrentes apenas de escolhas feitas na parte final. Nos demais momentos, o título não nos exige tomar nenhum tipo de decisão capaz de influenciar na história e costuma ser bem direto: são raros os momentos em que podemos fazer interação com algo que não está atrelado ao objetivo principal. Isso acaba tornando Au Revoir mais simples quando comparado com outros jogos point and click.

A jogabilidade funciona bem dentro daquilo que se espera de um game do gênero, entregando uma experiência satisfatória. Quando é necessário percorrer uma distância maior do que a habitual, o personagem automaticamente adota um ritmo de passos mais acelerado, algo bastante positivo. O nível de dificuldade é baixo, principalmente para quem já está acostumado a lidar com quebra-cabeças envolvendo a coleta e o uso de objetos em locais certos, como em títulos da franquia Resident Evil. Mas nem tudo se resume a isso, em alguns casos é necessário buscar pistas no ambiente para encontrar a forma de superar o desafio. Na parte intermediária há um puzzle que envolve a transmissão de uma mensagem por intermédio de textos em janelas no computador, solução que foi muito bem empregada pelos desenvolvedores. Apesar da simplicidade, cada quebra-cabeça tem uma estrutura própria de resolução.
Adotando visão em câmera fixa e visual que remete aos gráficos da geração do primeiro PlayStation, Au Revoir tem um estilo artístico muito bonito. É notável o cuidado que a equipe da desenvolvedora brasileira Invisible Studio teve em criar cada pequeno detalhe, resultando em uma ambientação visualmente agradável, marcada por uma pegada retrofuturista. O jogo conta com diferentes tipos de ambientes, sendo cada um deles distintos e bem construídos. A parte sonora também não decepciona e conta com uma boa seleção de faixas e uma dublagem em português bem executada. Os demais elementos de som também apresentam contribuição relevante para a imersão.
Au Revoir é uma jornada curta, podendo ser concluída em aproximadamente duas horas. Esse tempo pode ser prolongado indo atrás dos outros desfechos, algo que vale a pena ser feito, principalmente se você gostou da história. Durante o tempo em que passei jogando, não tive grandes contratempos com relação à parte técnica: o jogo está bem otimizado e houve apenas um caso isolado de congelamento, o que me obrigou a reiniciar o game. Notei também um problema com a leitura de documentos ao acessar o inventário. Como tive acesso a uma versão pré-lançamento, sem os patches de correção, é provável que essas questões sejam resolvidas com atualizações.
Disponível no PC desde o ano passado, Au Revoir foi lançado hoje para Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One e Xbox Series. Esta análise foi feita com base na versão de PlayStation 5 com uma cópia fornecida pela Nuntius Games.

Considerações finais
Em Au Revoir acompanhamos uma aventura cyberpunk bem desenvolvida e que vai se tornando cada vez mais instigante à medida em que se avança no jogo. Por se tratar de um título point and click, esperava que houvesse um grau maior de interatividade com os ambientes, ficando basicamente todas as opções disponíveis atreladas aos objetivos principais. O baixo nível de dificuldade é outro ponto a ser ponderado.
O título se destaca pelos elementos audiovisuais, apresentando gráficos muito bonitos, com o visual característico da quinta geração de consoles, e elementos sonoros de qualidade. Com visão em câmera fixa e jogabilidade própria de títulos do gênero, Au Revoir não tenta ser maior do que é e entrega uma boa experiência ao jogador.