Análise da série Pluribus (1ª temporada)

Após passar mais de dez anos trabalhando em Breaking Bad e Better Call Saul, Vince Gilligan retornou com uma proposta totalmente diferente. De familiar com os trabalhos anteriores, temos a cidade de Albuquerque e a atriz Rhea Seehorn, que desta vez dá vida à protagonista Carol Sturka, uma renomada escritora de romances. Desde que foi anunciada, pouquíssimas informações sobre Pluribus foram reveladas: com uma sinopse vaga, sabíamos apenas que se tratava de uma obra de ficção científica. Depois de assistir à primeira temporada, posso afirmar que Gilligan novamente nos apresenta algo acima da média.

Pluribus começa de forma enigmática, com astrônomos captando um sinal vindo do espaço que se repete a cada 78 segundos. Ao descobrir que o código era uma sequência de RNA, cientistas do Instituto de Pesquisa Médica de Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unidos decidiram reproduzi-lo em um laboratório, realizando testes com animais. Não se tratava de um ser vivo em si, mas algo semelhante a um vírus, embora não pudesse ser categorizado dessa maneira. Quando um incidente ocorre no laboratório, as pessoas começam a se contaminar pela saliva e passam a agir coletivamente para propagar a infecção.

Em meio a esse panorama, Carol retorna a Albuquerque junto com Helen (Miriam Short), sua empresária e esposa, após realizar uma turnê de divulgação do seu livro mais recente. À noite, ao saírem de um bar, Carol presencia um homem batendo sua caminhonete em um carro estacionado. Se aproximando do veículo, a escritora nota o motorista desacordado apresentar um comportamento estranho, como se estivesse tendo uma convulsão. Logo em seguida, Carol vê Helen cair no chão e manifestar o mesmo tipo de sintoma. Ao tentar buscar ajuda, a protagonista percebe que todos ao redor, exceto ela, estavam sofrendo convulsões. O mais surpreendente acontece na sequência, quando as pessoas acordam e começam a agir como uma mente coletiva, falando inclusive as mesmas frases em conjunto.

Assustada com tudo o que estava acontecendo, Carol retorna para casa com o corpo de Helen, que não sobreviveu à transformação. Pela TV, ela descobre o que havia acontecido na Terra, além do fato de existirem no mundo outras 11 pessoas que também ficaram imunes ao ocorrido, algo categorizado como uma condição rara. Todas essas questões são abordadas no episódio piloto, que, por sinal, é um dos melhores capítulos de estreia que já assisti. Tudo é colocado meticulosamente para nos introduzir ao enigmático universo de Pluribus, que pouco a pouco vai se mostrando cada vez mais fascinante.

A partir do segundo episódio, quando a mente coletiva envia Zosia (Karolina Wydra) à casa de Carol para ajudá-la a lidar com sua nova realidade, a série ganha novos contornos. Junto com a protagonista, vamos descobrindo informações importantes sobre “Nós”, como os indivíduos afetados pela infecção se denominam. Abalada pela perda da esposa, Carol se mostra muito instável na primeira parte da temporada e logo percebe que suas ações geram consequências que afetam pessoas em todo o mundo, devido ao fato de a mente coletiva não conseguir lidar com emoções negativas. Embora ainda não saibam como, os transformados almejam desenvolver uma forma de fazer as pessoas imunes se juntarem a eles. Enquanto isso não ocorre, a mente coletiva faz de tudo para que os não afetados se sintam bem.

Ciente de todos esses pontos, Carol busca uma maneira de reverter a situação, mas sua tarefa não será simples, já que grande parte dos outros imunes parecem não se importar com o estado atual das coisas. A exceção é Manousos (Carlos-Manuel Vesga), um colombiano que vive no Paraguai e se recusa fazer qualquer tipo de contato com as pessoas infectadas. Esse arco narrativo é desenvolvido com maior profundidade na segunda parte da temporada, com direito a um capítulo quase que inteiramente dedicado a Manousos.

No decorrer dos nove episódios, Carol passa por diversos estágios, algo que se mostra determinante para que ela tenha certeza do que precisa ser feito, mesmo que o caminho ainda não esteja claro. O turbilhão de situações vivenciado pela protagonista fica evidente graças ao belíssimo trabalho desempenhado por Rhea Seehorn, que já havia dado uma prova do seu talento em Better Call Saul. A atuação de Seehorn é profundamente marcante, sendo um dos pontos de maior destaque de Pluribus.

De tudo o que envolve a narrativa, o ponto mais curioso é a forma de dominação planejada pela mente coletiva, fugindo completamente do usual, já que não há uso de força física e nem ameaça, mas sim um convencimento feito por meio da promessa de felicidade. Será interessante observar como isso será explorado na segunda temporada, principalmente após os eventos retratados no episódio final. Se há uma ressalva que posso fazer é o ritmo um pouco lento de certos episódios: não foi algo que me incomodou profundamente, mas provavelmente não agradará a todos. Também gostaria de ter visto uma maior participação de Manousos, que trouxe nuances importantes para uma trama muito centralizada em Carol.

Considerações finais

Depois dos excelentes trabalhos em Breaking Bad e Better Call Saul, Vince Gilligan prova mais uma vez o seu talento em criar boas histórias, agora com uma série de ficção científica. Apesar do ritmo lento de alguns capítulos, a temporada de estreia de Pluribus nos apresenta um enredo instigante, que vai se tornando cada vez mais fascinante de se acompanhar. Muito disso se deve a protagonista, que de uma hora para a outra vê sua vida ser completamente transformada e passa a lidar com profundas mudanças na sociedade. A personagem vivida por Seehorn é complexa, e a atriz consegue com seu excelente trabalho transmitir isso para o público.

A forma estranha (e às vezes até incômoda) com que os integrantes da mente coletiva se comportam, com pessoas sorrindo o tempo todo, e a falta de paciência, o mau humor e a impulsividade de Carol geram um contraste interessante. Os enquadramentos de câmera e a direção elevam a experiência. Diversas reflexões podem ser feitas em cima do enredo, como o livre arbítrio, a individualidade de cada um e a necessidade de viver em sociedade. Pluribus é aquele tipo raro de série que recompensa quem presta atenção aos detalhes, uma vez que nada é colocado em cena por acaso.

★★★★☆Ótimo
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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