Análise do jogo Life is Strange: Reunion

Após ter jogado todos os títulos da franquia, o primeiro Life is Strange segue sendo o meu favorito. A forma com que a história de Max Caulfield e Chloe Price foi construída, a possibilidade de voltar no tempo para refazer uma escolha e as consequências que nossas ações provocam foram algo que me marcou muito. Quando a Square Enix anunciou que as duas voltariam a se encontrar em Life is Strange: Reunion, houve um misto de empolgação e temor, principalmente por Double Exposure não ter atingido as minhas expectativas. Depois de ter finalizado Reunion, posso afirmar que a Deck Nine Games conseguiu se redimir das falhas do título anterior, embora ainda haja pontos que merecem atenção.
Reunion inicia com uma retrospectiva de parcela dos acontecimentos de Life is Strange e Life is Strange: Double Exposure até nos levar a uma tela em que precisamos estabelecer algumas definições baseadas nas decisões tomadas nos dois jogos mencionados. Até é possível optar por fazer escolhas aleatórias e dar sequência à história, mas o ideal é que você tenha jogado ambos os títulos antes de prosseguir, até para compreender todo o peso que Max carrega consigo. Além disso, os acontecimentos retratados em Double Exposure são essenciais para justificar a presença de Chloe na narrativa, independentemente da escolha feita no final do primeiro game. Esse era um dos pontos que mais me preocupava e fiquei extremamente contente em ver que tudo se encaixa bem dentro do que é proposto.
A trama, ambientada alguns meses após os eventos de Double Exposure, mostra que Max vem conseguindo se destacar profissionalmente. Quando estava retornando de uma viagem, ela recebeu uma mensagem de Moses informando que alguém havia realizado um ataque à Universidade de Caledon, provocando um incêndio no campus. Assim que chega em Lakeport, Max vai até a instituição de ensino e tenta ajudar quem estava no local. Apesar dos esforços, a personagem não consegue salvar Moses e novamente vê alguém próximo a ela ser alvo de uma tragédia. Sem poder conviver com o que havia acabado de presenciar, Max utiliza uma foto tirada há três dias para voltar no tempo e tentar impedir a ocorrência do incêndio.
Diferente do que aconteceu quando era apenas uma adolescente, Max agora sabe dos riscos que existem quando se trata de alterar algum evento do passado. Contando com a ajuda de Moses, sua missão é desvendar os eventos que desencadeiam o incêndio e encontrar uma forma de evitá-lo. Nesse processo, ela descobre tensões existentes entre a Universidade de Caledon e a sociedade secreta Abraxas, além do fato de Lucas Colmenero, ex-professor na universidade, ser agora uma voz que possui certa influência na sociedade local.
E como Chloe se encaixa nessa história? Estando convivendo com visões estranhas, Chloe resolve ir até Lakeport atrás de Max para tentar entender o que estava acontecendo. O reencontro entre elas, inclusive, acontece em um momento bem oportuno, logo após Max ter se envolvido em uma situação bastante arriscada. Quem também está de volta é Safi, que utiliza seus poderes de metamorfa para não ser identificada; a razão pela qual ela retornou à cidade é outro mistério que precisa ser resolvido. Em meio a essas questões, Max e Chloe abordam temas do passado e refletem sobre as incertezas do futuro.

O grande mérito da franquia Life is Strange sempre foi construir histórias capazes de nos fazer criar vínculos com os personagens, de modo que passamos a nos importar com as situações com as quais eles são obrigados a lidar, colocando um peso real nas escolhas que precisam ser tomadas. Em Life Is Strange: Reunion isso é sentido de forma mais profunda na reta final, já que as decisões tomadas até a parte intermediária não parecem gerar grandes consequências. Um ponto no qual o título se destaca é na criação de momentos entre Max e Chloe: mesmo estando agora adultas, ver as duas novamente juntas foi uma experiência muito satisfatória. Ainda há um ou outro ponto do enredo que gostaria que fosse mais explorado, como a falta de profundidade dos personagens secundários, mas nada se compara às falhas existentes em Double Exposure. A Deck Nine parece ter aprendido com os erros do jogo anterior e desta vez entrega algo que faz jus à série.
Ao longo da jogatina, o game alterna entre momentos em que controlamos Max e Chloe de forma separada, mas em alguns diálogos fazemos escolhas de falas com ambas as personagens. Desta vez a história é contada de forma contínua, sem ser dividida em capítulos. Com Max, podemos retroceder no tempo para alterar escolhas ou obter dados essenciais para progredir na história. Já com Chloe, é possível extrair informações relevantes fazendo uso de sua capacidade argumentativa, mecânica já vista em Life Is Strange: Before the Storm, mas é uma pena que isso ocorra apenas três vezes durante a campanha. Para quem busca realmente absorver o máximo do universo em que as protagonistas estão inseridas, é sempre bom dar uma lida nos diários e nas mensagens de texto no telefone.
O gameplay segue o padrão dos títulos anteriores, possibilitando a exploração de ambientes, interação com objetos e a realização de diálogos com determinados NPCs. A aventura também conta com colecionáveis que precisam ser encontrados: registros de fotos com Max e esboços de desenhos com Chloe. Caso deixe algo para trás, é possível utilizar o recurso de explorar cena para coletar o que ficou pendente, ocasião em que as escolhas que tomamos não são alteradas. Se você pretende ir atrás de todas as conquistas, esteja ciente que será preciso completar o game mais de uma vez, oportunidade em que novos caminhos podem ser trilhados.
Visualmente, Life is Strange: Reunion segue um estilo já visto em outros jogos da série, algo que me agrada. Os cenários são bem construídos, assim como a caracterização dos personagens. Desta vez, no entanto, notei que alguns refinamentos ainda precisam ser feitos: no PC, o jogo sofre com a reprodução de algumas sombras e, próximo aos cabelos, constantemente notei problemas com o efeito de desfoque do fundo. Já com relação aos efeitos sonoros, temos novamente uma trilha sonora espetacular, uma ótima performance de dublagem e efeitos de áudio de qualidade.
Ao começar o game, por padrão as sombras estavam definidas como “baixo” para a minha configuração. Fiz testes alterando essas opções para médio e alto, o que contorna em parte os problemas que mencionei, e não notei grandes mudanças de performance. Com elementos gráficos definidos como “alto” e “alto pra cacete”, o jogo rodou com uma taxa de quadros próxima de 60 fps, com leves variações. Houve, no entanto, duas ocasiões em que o game crashou logo após ser iniciado, ainda nos créditos iniciais. Felizmente não houve falhas que me obrigassem a interromper o gameplay nas mais de 12 horas que passei jogando.
Life is Strange: Reunion está disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series. Esta análise foi feita com base na versão de PC com uma cópia fornecida pela Square Enix.
Especificações do computador utilizado para a análise: Ryzen 7 5700X, RTX 3060 12 GB, 32 GB de memória RAM DDR4 3200Mhz.

Considerações finais
Reunion entrega uma aventura digna para o que Max e Chloe representam na franquia Life is Strange. Apesar de estarem inseridas em um cenário e contexto completamente diferentes, a Deck Nine conseguiu manter a essência do vínculo existente entre as duas personagens. Enquanto buscam evitar que uma tragédia aconteça, elas se veem envoltas por uma narrativa que explora mistérios e conflitos existentes na cidade de Lakeport. O enredo pode até pecar em alguns pequenos aspectos, mas acerta naqueles que podem ser considerados os pontos mais relevantes.
Com uma jogabilidade que segue o padrão dos títulos anteriores, as escolhas que tomamos na parte final nos conduzem a múltiplos desfechos. O game ainda precisa passar por um refinamento para corrigir problemas existentes na parte gráfica. Após ter cometido deslizes em Double Exposure, com Reunion o estúdio conseguiu se redimir e entregou um título em que os pontos positivos conseguem se sobressair aos negativos.