Análise do jogo Pragmata

Desde que Pragmata foi anunciado no evento de revelação do PlayStation 5, em 2020, o projeto não me chamou muita atenção. A ideia de ver a Capcom estabelecendo uma nova IP parecia interessante, mas o trailer de anúncio pouco revelador, somado aos diversos adiamentos que arrastaram o lançamento — inicialmente planejado para 2022 — até este ano, me transmitiu a sensação de que este era mais um título sci-fi pouco criativo, tentando replicar a campanha de marketing misteriosa de Death Stranding. Hoje, após passar pelo menos uma dezena de horas mergulhado neste universo inédito, percebo que, além de ter me enganado totalmente sobre a qualidade do game, posso estar diante do raro nascimento de uma nova grande franquia.
Em Pragmata, controlamos Hugh, o membro de uma equipe encarregada de investigar a situação de uma base lunar que cortou comunicação com a Terra. Chegando lá, ele se separa do restante do time e descobre que a Inteligência Artificial responsável pelo gerenciamento do local se rebelou. A partir disso, Hugh explora o complexo e conhece Diana, uma garotinha andróide que possui habilidades avançadas de hacking e consegue se conectar diretamente ao sistema da estação. Juntos, os dois formam uma aliança para enfrentar as ameaças encontradas na base, ao mesmo tempo que desenvolvem uma relação quase familiar, o que define o tom da trama como algo surpreendentemente leve e divertido.
O jogo não conta com um enredo particularmente inovador ou dramático. Em geral, a história transmite um sentimento forte de esperança, indo na contramão da maioria dos Triple A recentes, que frequentemente apostam em tramas cinzas e repletas de grandes perdas. Isso, no entanto, não torna este um título raso. Temas relevantes são sim abordados ao longo da campanha, e a construção do universo é muito bem executada. As cutscenes, dirigidas de forma cinematográfica, contam com gráficos primorosos e são acompanhadas por um trabalho de dublagem fenomenal, tanto no idioma original quanto em português. Por outro lado, muitos detalhes da lore são contados durante as sessões jogáveis, por meio de arquivos de áudio, texto e itens coletados. Com eles, é possível conhecer mais sobre a vida na estação antes do colapso e entender o quão avançada se tornou a tecnologia daquele mundo.
Normalmente, descobrir sobre a história de um jogo através de itens no cenário não é uma opção muito divertida. Mas, por meio da figura de Diana, esse elemento acaba sendo muito bem-vindo. A personagem, que tem a inocência de uma criança, sempre reage de forma única a cada informação descoberta. Ela faz perguntas, e é possível respondê-la, transformando o que poderia ser um momento factual em uma conversa divertida entre personagens que são como pai e filha. Alguns recursos coletados são enviados diretamente ao Abrigo, onde Hugh retorna para se equipar ao concluir cada missão ou quando é derrotado. Com isso, o local vai sendo customizado, ganhando novas músicas de fundo e ficando repleto de brinquedos e objetos tradicionais do planeta Terra.
Na jogabilidade, o foco está em duas mecânicas totalmente distintas. Inicialmente Hugh possui apenas uma pistola para se defender das máquinas rebeldes, até que outras armas começam a ser disponibilizadas ao longo da aventura. O arsenal é dividido em categorias, oferecendo armamento ofensivo, tático e voltado à defesa. Cada uma ocupa um espaço diferente no inventário, e com exceção da primária, todas se quebram quando o pente de munição é esgotado, forçando o jogador a adaptar-se com o que sobrou à sua disposição. Esse é um recurso que, apesar de criar uma dificuldade artificial, contribui para o melhor conhecimento do arsenal, algo positivo, visto que todas as armas têm suas peculiaridades e um gunplay extremamente satisfatório. O outro aspecto da jogabilidade é baseado na habilidade de hackeamento de Diana, que funciona a partir de puzzles. Através deles, é possível quebrar a defesa dos oponentes e até mesmo causar danos adicionais ou outros efeitos, assim viabilizando o combate contra múltiplos inimigos.
Pragmata constantemente oferece opções de personalização e evolução. É possível aprimorar a arma primária de Hugh, seu traje e a andróide Diana. Também há como adquirir novos armamentos para as missões, melhorá-los, comprar novos espaços dedicados a itens de cura, desbloquear habilidades do traje espacial e obter módulos que alteram os efeitos do hackeamento nos inimigos. Embora essa avalanche de possibilidades assuste inicialmente, a gestão desses recursos logo se integra à estratégia geral do game. O lado negativo é que, em meio a tantos aprimoramentos, alguns parecem básicos demais, diluindo a sensação de progressão real. Existem, sim, evoluções significativas, mas elas acabam dividindo espaço com diversas melhorias menos interessantes.
É difícil encontrar defeitos perceptíveis em Pragmata. A trilha sonora, embora competente, não chega a ser marcante da mesma forma que outros elementos do jogo conseguiram, mas isso pouco impacta em uma jornada tão cuidadosamente construída. Os anos de desenvolvimento se justificam completamente, já que tudo funciona exatamente como deveria, sem bugs perceptíveis ou quedas de frames. Até sistemas totalmente secundários e, à primeira vista, dispensáveis recebem um carinho raro. Um exemplo disso são os momentos em que Diana entrega ao protagonista desenhos feitos por ela mesma, retratando acontecimentos vividos pela dupla com uma simplicidade típica de uma criança humana. Esse tipo de situação reforça o quão cheio de alma é o game.
O título regularmente recompensa aqueles que vasculham os cenários com novos armamentos, recursos para aprimoramentos e cosméticos direcionados ao refúgio, fazendo com que sempre exista um motivo para investigar corredores e salas opcionais. Ainda assim, a exploração da base lunar raramente aposta em grandes áreas abertas, sendo geralmente linear. Há uma forte predominância da cor branca na estética dos locais visitados, o que conversa diretamente com os inimigos, majoritariamente robôs de aparência igualmente fria. Estes, no entanto, possuem uma ampla variedade de versões, com diferentes formatos e habilidades, além de chefes bastante peculiares. Algumas áreas também conseguem fugir do padrão estético da estação, como uma curiosa réplica reduzida de Nova York, que funciona como um pequeno hub para diferentes objetivos.
No geral, Pragmata é um jogo completo, que sabe dosar suas mecânicas para nunca acabar repetitivo ou complicado demais — um feito impressionante para um projeto que alterna constantemente entre tiroteios e puzzles, ambos em terceira pessoa. Novas possibilidades surgem com frequência suficiente para manter a jogabilidade dinâmica até o fim da campanha, que se estende por no máximo dez horas. É uma duração relativamente curta considerando os padrões atuais da indústria, mas a experiência final é eficiente o bastante para que a jornada termine deixando um forte gosto de quero mais, assim despertando a vontade de desbravar o modo New Game Plus e criando expectativas para uma eventual sequência.
Pragmata está disponível para PC, Nintendo Switch 2, PlayStation 5 e Xbox Series. Esta análise foi feita com base na versão de Xbox Series S com uma cópia fornecida pela Capcom Brasil.

Considerações finais
Com uma campanha sci-fi que não aposta em uma narrativa revolucionária, Pragmata consegue se destacar pela excelente relação desenvolvida entre seus protagonistas. O jogo tem êxito em equilibrar interações leves com exploração e combates intensos mesclados a puzzles. A ambientação futurista funciona muito bem, contando com uma identidade visual forte e bastante característica, acompanhada por uma trilha sonora quase sempre discreta, mas que ainda entrega algumas faixas genuinamente marcantes.
A grande quantidade de sistemas de evolução e personalização pode soar intimidadora no início, mas ainda que nem todos os aprimoramentos ofereçam uma sensação satisfatória de progressão, isso está longe de comprometer a experiência. Pelo contrário: tudo funciona de maneira surpreendentemente coesa em uma campanha extremamente divertida, que mantém o fôlego do início ao fim. Em uma indústria cada vez mais acostumada com lançamentos problemáticos e pouco inspirados, é raro encontrar um projeto tão seguro daquilo que quer ser. Existe carisma em praticamente todos os aspectos da aventura, a ponto de ser difícil não enxergar aqui o nascimento de uma das próximas grandes franquias da Capcom.