O ser humano realmente é capaz de cometer atrocidades contra a sua própria existência. Além de atingir a si mesmo, os estragos provocados no meio-ambiente muitas vezes são irreparáveis. Nos últimos anos, o Brasil viu duas barragens de rejeitos de mineração se romperem no estado de Minas Gerais, o que afetou e destruiu uma quantidade enorme famílias. E pensar que tragédias como estas poderiam ter sido evitadas... Sabe o que é ainda mais revoltante? Ver que o rompimento da barragem em Mariana (2015) não serviu nem mesmo de aprendizado, uma vez que a história se repetiu em Brumadinho neste ano.

A explosão ocorrida na Usina Nuclear de Chernobyl é mais um exemplo de como as ações humanas podem gerar consequências catastróficas. Essa triste página da nossa história foi retratada na minissérie Chernobyl, coproduzida pela emissora estadunidense HBO e pela britânica Sky Atlantic. Em cinco episódios, a produção busca retratar o incidente ocorrido no dia 26 de abril de 1986 e as ações tomadas pela União Soviética para conter o acidente nuclear.

Durante a realização de um teste de segurança (em condições não recomendáveis), uma grande explosão ocorreu na usina. A violação dos protocolos de segurança fez com que o núcleo do reator 4 explodisse, causando uma liberação de radiação quatrocentas vezes maior do que a bomba atômica de Hiroshima. Em um primeiro momento, ninguém tinha noção do que realmente estava acontecendo. Apesar de relatos internos de funcionários indicarem que o núcleo do reator 4 poderia ter explodido, Anatoly Dyatlov (Paul Ritter), engenheiro-chefe do teste de segurança, descartou a possibilidade de tal fato ter ocorrido. Passadas algumas horas, nem mesmo os cientistas eram capazes de responder como um reator RBMK poderia ter explodido.

Com um grandioso incêndio para ser contido, bombeiros se dirigem até o local para conter o fogo. Três mergulhadores entram em uma parte alagada da usina, onde havia água contaminada, em uma missão para esvaziar tanques de água e evitar que o incidente tomasse proporções ainda maiores. Em outro momento, mineiros de carvão são chamados para escavar um túnel embaixo do reator. Estas são apenas algumas pessoas que deram sua vida para em prol da segurança de todo o mundo. Muitas não sabiam dos riscos que estavam correndo.

A falta de transparência por parte das autoridades fez com que a vida de inúmeras de pessoas que moravam nas proximidades da usina fossem para sempre mudadas. Vale lembrar que em 1986, a União Soviética vivia momentos de tensão política e ideológica contra os Estados Unidos, período conhecido como guerra fria. Em razão disso, os soviéticos tiveram uma enorme dificuldade para aceitarem o que realmente estava acontecendo em Pripyat. Notas oficiais do governo indicavam que tudo estava controlado, enquanto os cientistas não tinham nem noção do que iriam fazer.

No meio de todo esse contexto, o físico Valery Legasov (Jared Harris) tem a difícil missão de controlar o acidente o acidente nuclear. Ciente de tudo o que estava acontecendo, Legasov vive a angústia de não ter a sua voz escutada pelo governo, principalmente no tocante a retirada das pessoas que estavam em um raio próximo da usina. A evacuação só foi feita 36 horas depois da explosão. O fato de políticos não acreditarem em cientistas infelizmente não é algo que ficou no século XX: ainda hoje existem muitos deles que não acreditam no aquecimento. Muitas são as reflexões que podem ser feitas em cima daquilo que é retratado pela séria da HBO e Sky Atlantic.

A parte técnica de Chernobyl é impecável. A ambientação da época é muito bem-feita. Os efeitos causados pela radiação no corpo humano são impressionantes e chocantes. Trata-se de uma minissérie melancólica e dramática, que tem o objetivo de realmente tocar aqueles que a assistam. Não há como deixar de se sentir mal depois de assistir todo o sofrimento das pessoas que vivenciaram o maior acidente nuclear do mundo.


Considerações finais
A minissérie Chernobyl, coprodução da HBO e Sky Atlantic, vem recebendo inúmeros elogios desde que foi lançada. De fato, trata-se de uma excelente produção audiovisual, que retrata a catástrofe gerada pela explosão de um reator nuclear em uma das usinas nucleares da URSS. Baseada em fatos reais, os seus cinco episódios são bem diretos, não perdendo tempo em criar abordagens sem grande importância. Todas as pequenas subtramas estão ali para mostrar o quão devastador o incidente foi, e as diversas medidas que tiveram que ser tomadas.

Todos os personagens principais existiram de verdade, com exceção de Ulana Khomyuk (Emily Watson), a física que auxiliou Legasov a entender o que havia acontecido e criar estratégias para conter a radiação. A produção da série explica no último episódio que a personagem Ulana Khomyuk foi criada para retratar a grande equipe que auxiliou Legasov: ao invés de criar vários personagens, a figura de todos eles foram concentrados em Khomyuk. A escolha de uma mulher para desempenhar tal papel se deve pelo fato de na época existirem muitas cientistas na União Soviética. Estudos apontam que a igualdade de gênero na ciência e medicina na URSS eram um dos mais altos do mundo.

Nota
★★★★★ - 5