Análise da série Stranger Things (5ª temporada)

Atenção! O texto a seguir contém spoilers da quarta temporada de Stranger Things.

Dezoito meses se passaram desde que enormes fendas surgiram no solo de Hawkins, transformando completamente a vida dos moradores locais. Seguindo sua busca por Onze/Eleven (Millie Bobby Brown), o exército dos Estados Unidos colocou a cidade em quarentena, isolou uma área na região central do município onde há um enorme portal e construiu uma base militar dentro do mundo invertido. Diferente do que aconteceu na temporada passada, agora todos os personagens estão novamente em Hawkins, com Joyce (Winona Ryder) e sua família se abrigando temporariamente na casa de Mike (Finn Wolfhard).

Tendo ciência que Vecna (Jamie Campbell Bower) não havia sido derrotado e poderia voltar a agir a qualquer momento, o grupo se prepara como pode para lidar com essa ameaça. Com o alto grau de vigilância agora existente na região, novas estratégias precisam ser adotadas. É nesse ponto que Murray (Brett Gelman) passa a ter um papel primordial: trabalhando como motorista de um caminhão de entregas, ele tem acesso aos itens que são solicitados pelos militares, permitindo que haja uma antecipação dos próximos passos que serão tomados pelo exército. Com esses dados, Steve (Joe Keery), Robin (Maya Hawke), Jonathan (Charlie Heaton) e Nancy (Natalia Dyer), que agora trabalham em uma estação de rádio local, identificam oportunidades para Hopper (David Harbour) ir até o Mundo Invertido e tentar rastrear a localização de Vecna. Paralelo a isso, com o auxílio de Joyce e Hopper, Onze segue escondida e realiza treinamentos para um eventual novo confronto.

Apesar de todos os esforços, os personagens não conseguem evitar as ações do antagonista. Assumindo a identidade de Senhor Fulano e utilizando sua forma humana, Vecna se aproxima de um grupo de crianças, fingindo ser um amigo imaginário, para colocar em prática seu novo plano. Um de seus alvos é Holly (Nell Fisher), a irmã caçula de Mike e Nancy. Desaparecendo no segundo episódio após ser capturada por um Demogorgon, Holly ganha destaque ao participar de um arco que expande aquilo que até então entendíamos ser o universo da série. Seguindo em coma no mundo real, Max (Sadie Sink) também está inserida nessa nova temática, sobre a qual falarei mais adiante.

Sem perder a esperança de que Max irá se recuperar, Lucas (Caleb McLaughlin) faz visitas constantes a ela no hospital. Já Dustin (Gaten Matarazzo) segue revoltado com a morte de Eddie e se vê obrigado a lidar com as consequências de seus atos. Além de seguir provocando o time de basquete da escola, Dustin também tem um comportamento estranho com Steve durante grande parte da temporada, algo que não curti muito, principalmente por em anos anteriores eles terem demonstrado um grande entrosamento. Tudo bem que cada um reage de uma forma, mas outros personagens também enfrentaram momentos difíceis no decorrer dos capítulos e não deixaram isso interferir em suas ações, principalmente durante a realização das operações. Falando nas operações, Stranger Things novamente brilha quando o assunto é trabalho em equipe, indo desde a criação de teorias até colocar em prática aquilo que foi idealizado. É muito legal ver os personagens fazendo uso de tecnologia para conseguir, por exemplo, manter a comunicação entre o mundo real e o mundo invertido.

Will (Noah Schnapp) sempre foi uma peça central na história, tanto é que a série inicia a última temporada apresentando uma sequência estendida do que aconteceu com ele em 1983. Com exceção do quarto ano, quando estava distante de Hawkins, o filho de Joyce sempre manteve algum tipo de ligação com o mundo invertido. Além do já clássico frio na nuca, desta vez Will passa a ter um tipo de conexão mais forte, o que permite que ele avise seus amigos sobre o ataque na casa de Mike minutos antes dele acontecer, fato retratado no episódio de estreia. No decorrer dos capítulos, a nova habilidade do irmão de Jonathan ganha contornos interessantes, permitindo que pela primeira vez ele assuma uma posição de dominância, e não mais de vítima. Em contrapartida, isso acaba diminuindo a importância que Onze tem na narrativa.

O mundo invertido, que já foi retratado como um lugar extremamente hostil, desta vez estranhamente parece pacato até demais. Chama a atenção também o fato de não haver qualquer tipo de proteção no local em que Vecna está, destoando de tudo o que foi construído anteriormente. Na realidade, essa foi a temporada que me gerou a menor sensação de risco para os personagens, nada parece tão impactante comparado ao que a atração já fez em anos anteriores. Outra coisa que me incomodou foram algumas sequências de diálogos muito longas: elas até funcionam bem em algumas ocasiões, como as cenas de Jonathan e Nancy no sexto episódio, mas em outros momentos, quando era preciso um maior dinamismo, elas se prolongam além do necessário, representando uma quebra brusca de ritmo.

Como mencionei anteriormente, durante a temporada final os Irmãos Duffer decidiram aumentar o universo de Stranger Things, abordando algo que até então não havia sido trabalhado na série. A “mente” de Vecna tem uma premissa interessante e contribui para o desenvolvimento do antagonista e de outros personagens. O problema é que não para por aí, já que no sexto capítulo temos uma nova expansão, e com isso falta tempo para explorar a nova temática com a profundidade necessária e responder todas as perguntas que surgem a partir desse ponto. Na verdade, a reta final como um todo conta com problemas narrativos: mesmo com suas mais de duas horas de duração, o último episódio não consegue apresentar um desfecho para todos os personagens, alguns deles simplesmente somem da história e fica por isso mesmo. Além disso, não gostei muito da opção por um final aberto, preferia que todas as pontas tivessem sido bem amarradas.

Considerações finais

Depois de muita expectativa, Stranger Things chegou ao fim naquela que pode ser considerada a sua pior temporada. Não que o desfecho da série seja um desastre, mas ao longo dos oito episódios existem vários fatores que evidenciam problemas que poderiam ter sido contornados com um roteiro mais consistente e melhor trabalhado (e olha que não faltou tempo para os Irmãos Duffer fazer isso). Ao invés de ir amarrando as pontas soltas já num preparativo para a conclusão, houve uma escolha por expandir o escopo da série e, no fim, a atração deixou a desejar em ambos os pontos. A essência segue presente, todavia de uma forma menos brilhante e empolgante do que visto nos quatro anos anteriores.

A temporada final de Stranger Things demonstra a importância que a narrativa desempenha em uma obra audiovisual, uma vez que a série não deixa a desejar nos demais aspectos. Os efeitos especiais, sempre que presentes, são de altíssimo nível, vide as ótimas cenas dos Demogorgons chegando no mundo real para agir e o derretimento no laboratório. A direção obtém êxito ao buscar valorizar cada cena, principalmente aquelas que podem ser consideradas os grandes momentos da temporada. O elenco, embora grande parte não tenha mais a mesma espontaneidade em razão do crescimento dos atores, desempenha um trabalho convincente, o que inclui os novatos. Ao se perder dentro das próprias premissas, a atração da Netflix se despede com a sensação de que havia potencial para as coisas serem muito melhores.

★★★☆☆Bom
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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