O assalto à Casa da Moeda da Espanha não foi o suficiente! Quando Rio (Miguel Herrán) foi capturado pela polícia, o Professor (Álvaro Morte) e os demais assaltantes colocaram em prática um novo e mais ousado plano: invadir a Banco da Espanha e fundir a reserva do ouro nacional. Apesar do meu receio, a terceira parte da série conseguiu criar um contexto para que a história (que foi originalmente planejada para acabar na parte dois) tivesse uma boa sequência. O desfecho foi, de certa forma, satisfatório, colocando personagens como Lisboa (Itziar Ituño), Nairobi (Alba Flores) e o próprio Professor em situações extremamente delicadas.

A nova leva de episódios começa mostrando as consequências das ações retratadas na parte três: o  novo plano até então nunca tinha atingido um estágio de fragilidade tão alto. Se do lado de fora Marselha (Luka Peros) tentava reconectar o Professor ao plano, dentro do Banco da Espanha o caos ganhava proporções maiores a cada minuto. No meio de todos os empenhos para tentar salvar a vida de Nairobi, Palermo (Rodrigo de la Serna) incentiva e ensina uma forma para que Gandía (José Manuel Poga), segurança do governador do Banco da Espanha, se soltasse das algemas. Já adianto que as situações envolvendo Gandía são as mais polêmicas da quarta parte de La Casa de Papel.

O roteiro até tenta criar uma justificativa para que Palermo, que foi vítima de um "golpe de estado", incentivasse a soltura de Gandía, mas é algo que pensando friamente não faz nenhum tipo de sentido, principalmente na situação de altíssimo risco em que todos ali estavam submetidos, incluindo o próprio Palermo. O histórico de Gandía também era conhecido por Palermo, o que torna a sua atitude ainda mais desprezível. Posteriormente, vemos Gandía envolvido em duas sequências de tiroteios, nos episódios cinco e seis; as cenas são ótimas, mas carecem de realidade. Sendo alvo de quatro atiradores na primeira cena, e de uma quantidade ainda maior na segunda, Gandía não leva nenhum disparo nas áreas desprotegidas do seu corpo, beirando o surrealismo. Além disso, o segurança também está envolvido na morte de um personagem importante da história, o que certamente desagradará grande parcela dos espectadores, ao mesmo tempo que mostra que ninguém está 100% seguro. A forma com que somos obrigados a despedir desse personagem é cruel, principalmente se formos analisar todo o seu histórico nesta quarta parte, como também a sua importância nas partes anteriores.

Apesar dos problemas que eu mencionei anteriormente, é a partir do momento que Gandía ganha mais espaço que a série se torna mais envolvente e dinâmica. Curioso, não? Isso porque os dois primeiros episódios apresentam um desenvolvimento lento e servem basicamente para contextualizar as questões que tinham ficado pendentes. O saldo positivo fica por conta da relação entre o Professor e Marselha. Marselha, que até então era um personagem tímido, acaba se mostrando essencial para o plano e deve ganhar ainda mais espaço na parte cinco. Com o segurança solto, conseguindo fazer contato com o mundo exterior e cortando as imagens das câmeras que o Professor tinha acesso, a situação começa a fugir do controle.

Do lado da polícia, as coisas também ficam interessantes. Ao mesmo tempo que o Coronel Tamayo (Fernando Cayo) ganha um importante reforço vindo diretamente de dentro do Banco da Espanha, o Professor também consegue um aliado dentro da tenda dos policiais. No meio de todo esse jogo, a maior vantagem fica com o Professor, que consegue obter informações preciosas sobre as ofensivas dos policiais, ao mesmo tempo que consegue transmitir uma mensagem à Lisboa, deixando-a mais calma. Vítima de uma prisão ilegal, Lisboa enfrenta um grande jogo psicológico com a inspetora Alicia Sierra (Najwa Nimri). Diferente da parte três, Alicia desta vez ganha uma abordagem mais humana, mostrando algumas de suas fragilidades. Ademais, Alicia também tem uma participação importantíssima no desfecho da história: as ações que levam até a surpreendente cena final foram inteligentes e deixam um baita gancho para a quinta temporada.

É uma pena que a equipe de produção não tenha entregado um desfecho para o assalto no Banco da Espanha no oitavo episódio desta quarta parte, levando a conclusão desse arco da história para mais uma temporada. A série espanhola da Netflix atingiu um status onde o seu enorme sucesso é que acaba ditando o ritmo de progressão da sua história. Quando é assim, por mais que a atração vá ganhando novas temporadas e gere um retorno financeiro maior, na maioria das vezes essa esticada na história acaba gerando uma queda na qualidade da temporadas. Seja como for, estarei aqui esperando a sua quinta parte para descobrir qual será a conclusão desse assalto.


Considerações finais
É verdade que a história contada em La Casa de Papel foge um pouco da realidade, mas a série sempre quis passar um ar coeso com seus planos mirabolantes e bem arquitetados, assim como as inúmeras ofensivas da polícia para tentar encurralar os assaltantes. Já houveram falhas nesse sentido nas partes anteriores, mas dessa vez foi algo que me incomodou mais. O segurança Gandía parece ter adquirido uma espécie de superpoder que o faz desviar de qualquer disparo de arma de fogo. E pensar que mostrar isso uma única vez não foi o suficiente... Apresar da quarta parte ser a mais fraca da série até então, os oito episódios mantêm uma boa qualidade, com ótimos trabalhos de fotografia e direção.

A mudança de comportamento de alguns personagens é bem positiva e ajudam a revigorar a série. As exceções ficam por conta de Tóquio (Úrsula Corberó) e Arturo (Enrique Arce): a primeira mantém o mesmo estilo explosivo, enquanto o segundo continua sendo um tremendo babaca (com alguns complicadores nessa temporada). O começo arrastado dos episódios iniciais dá lugar a uma sequência boa de acontecimentos relevantes, ressalvadas as falhas anteriormente mencionadas. O Professor segue orquestrando bons planos, com destaque para aquele que vemos no oitavo e último episódio. Embora a grande maioria do público esperava um final conclusivo, assim como aconteceu na parte dois, o desfecho apresentado foi, em partes, satisfatório, deixando grandes expectativas para sua continuação. Por essa eu imagino que o Professor não esperava!

Nota
★★★☆☆ - 3 - Bom


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