Análise do jogo Subversive Memories

Os anos de 1964 a 1985 deixaram uma ferida aberta no Brasil: o regime militar que se apossou do poder suprimiu diversos direitos fundamentais e tentou silenciar e apagar a história de várias pessoas. Relembrar (ou conhecer) esses acontecimentos é essencial para entender a trajetória de nosso país e, sobretudo, impedir que isso se repita no futuro. Uma das formas mais eficazes de manter essa memória viva é por meio da cultura, algo que o jogo Subversive Memories conseguiu fazer com grande mérito. Desenvolvido pelo Southward Studio, o título apresenta um enredo comovente que aborda inúmeros abusos cometidos durante a ditadura militar.
Sem fornecer explicações, o game começa com Renata acordando próxima a uma base militar após sofrer um acidente de carro. Explorando a área inicial, encontramos uma lanterna, ferramenta que é nossa principal aliada durante a jornada, já que pelo caminho há sombras que tentam nos atacar e só podem ser derrotadas com flashes de luz. Não demora muito para um flashback acontecer, ocasião em que descobrimos os primeiros detalhes sobre a história da protagonista e o que motivou sua ida até a base militar. Pouco a pouco, Renata vai desvendando qual é a sua ligação com o local e os mistérios lá existentes.
Parcela da narrativa nos é transmitida por meio de documentos espalhados pelos cenários e por lembranças de terceiros que Renata é capaz de experienciar. Isto acontece em áreas do jogo em que encontramos sombras sem substância, cujos espíritos podem revelar acontecimentos do passado se tivermos uma vela para acender. Esses são os momentos mais pesados de Subversive Memories, uma vez que as memórias exploram de maneira explícita as atrocidades cometidas por militares contra civis. Acender a vela é uma forma de trazer alívio a quem outrora sofreu, conforme mensagem que encontramos em um caderno de anotações nos minutos iniciais de gameplay.
O enredo é bem desenvolvido e nos faz refletir sobre diversas questões, mas há alguns pontos que eu gostaria que fossem abordados de forma mais profunda. Até entendo que parte disso se deve ao mistério sobrenatural existente no subterrâneo da base, no entanto, acredito que a narrativa seria ainda melhor se algumas informações extras estivessem disponíveis. Retratando fatos da nossa história, como o tricampeonato da Seleção Brasileira em 1970, Subversive Memories também reserva espaço para tocar em temas como a precarização da ciência e a luta dos povos indígenas na defesa de seus territórios.
A inspiração em jogos clássicos de terror e sobrevivência do final dos anos 1990 fica evidente não só pelos gráficos retrô, mas também pela jogabilidade com câmera fixa. Assim que adentramos o prédio da base militar, iniciamos aquele vai e vem característico de títulos do gênero, sendo necessário resolver quebra-cabeças bem elaborados, encontrar os itens corretos para abrir certas portas e bilhetes com pistas para destrancar cadeados e cofres. O jogo não conta com um nível de dificuldade elevado e houve apenas um momento em que fiquei realmente travado e sem saber o que fazer. Isso me levou a revisitar tudo o que havia liberado até então, mas a solução estava próxima de onde eu precisava ir; bastou ter um raciocínio lógico para conseguir destrancar a porta. O inventário, com seis espaços disponíveis, é mais do que o suficiente e dispensa qualquer tipo de gerenciamento de itens.

Além de clarear ambientes escuros, a lanterna é um objeto primordial em Subversive Memories, conforme mencionei anteriormente. Como não há nenhuma arma no game, a única forma de derrotar as sombras é utilizando o flash da lanterna, o que consome bateria. Quando gastamos completamente a bateria, um de seus seis segmentos é recarregado automaticamente com o tempo, mas a carga completa somente pode ser restabelecida fazendo a sua substituição. Essa mecânica acaba tornando os confrontos simplórios: as variações acontecem apenas na velocidade com que os oponentes se movimentam e na quantidade de vezes que precisamos utilizar uma luz intensa contra eles. Houve alguns momentos em que a mira com a lanterna não funcionou conforme o esperado, o que me fez gastar bateria desnecessariamente. Por sorte, o game tem uma quantidade de baterias e analgésicos que foram suficientes para chegar ao fim sem passar aperto.
O mapa do título registra pontos de interesse à medida que exploramos as salas da base militar. Diferente das portas, em que há uma identificação clara entre as que estão abertas e as que continuam trancadas, os demais itens permanecem com a mesma marcação no mapa. Isso nos obriga a guardar mentalmente quais velas foram acesas, quais cofres e cadeados foram abertos e quais maletas foram destrancadas. Seria interessante que, ao completar esses desafios, os ícones desaparecessem do mapa ou fossem substituídos por uma variante que possibilitasse uma identificação rápida e fácil do que ainda está pendente. O fato de se poder acessar os documentos coletados apenas nas salas em que salvamos o game foi outra escolha que acabou não me agradando. Também senti falta de conquistas para registrar o progresso e os desafios superados.
Falando agora dos elementos audiovisuais, pelas minhas análises você já deve ter percebido que raramente faço críticas ao visual de um jogo, até porque existem diferentes tipos de propostas e orçamentos, principalmente quando falamos de títulos independentes, sem mencionar que se trata de algo subjetivo. Prefiro focar no cuidado empregado na construção dos cenários, nos detalhes dos objetos e personagens, na forma como a iluminação é empregada, dentre outros aspectos que compõem a parte gráfica. Olhando para esse conjunto, Subversive Memories tem um visual retrô bonito e que valoriza nosso cotidiano; consegui perceber detalhes característicos do Brasil em diversos momentos. Os elementos sonoros são bons e a trilha sonora, mesmo sendo discreta, cumpre bem seu papel.
Nas minhas quase seis horas de gameplay, o jogo rodou sem problemas no meu computador, o que era esperado tendo em vista os requisitos modestos exigidos. Não presenciei queda na taxa de quadros, mas houve um momento em que a personagem ficou parada no cenário logo após passar por uma porta. Como estava jogando no controle, tentei dar os comandos pelo teclado, no entanto, segui sem obter sucesso e fui obrigado a reiniciar o game para prosseguir. Essa foi a única falha que presenciei durante a jogatina.
Subversive Memories está disponível para PC. Esta análise foi feita com uma cópia fornecida pelo Southward Studio.
Especificações do computador utilizado para a análise: Ryzen 7 5700X, RTX 3060 12 GB, 32 GB de memória RAM DDR4 3200Mhz.

Considerações finais
Ambientado durante um dos períodos mais sombrios do Brasil, Subversive Memories nos leva a encarar uma jornada de horror e sobrevivência dentro de uma base militar, local que guarda vários registros das crueldades cometidas pela ditadura. Enquanto tenta descobrir informações sobre si mesma, a protagonista se envolve em uma aventura sobrenatural, sendo obrigada a lidar com sombras que tentam atacá-la e a desvendar segredos existentes naquele lugar. É uma experiência curta, sólida e bem construída, porém deixa a desejar em alguns aspectos.
O maior desafio do game está na resolução dos quebra-cabeças, já que os momentos de confronto são simples e o espaço disponível no inventário é mais que suficiente para guardar os itens necessários que encontramos pelo caminho. Sinto que alguns ajustes nas mecânicas do título tornariam a experiência ainda melhor. Com um visual retrô bonito, Subversive Memories não é apenas um bom jogo, mas também uma importante obra para manter vivos os registros de um passado trágico da história de nosso país.