Análise da série Fallout (1ª temporada)

Nos últimos anos, adaptações de jogos para outros tipos de mídia têm se tornado cada vez mais frequentes na indústria do entretenimento. Enquanto algumas obras buscam ser bastante fiéis ao material de origem, como é o caso de The Last of Us, outras contam suas próprias narrativas tendo como base o universo construído pelos games. Falando especificamente de Fallout, a escolha pela segunda opção acaba sendo inteligente, já que a maioria dos jogos da franquia apresenta enredos independentes. O que há em comum são a Grande Guerra de 2077, evento nuclear que causou enorme destruição no planeta, e a ambientação retrofuturista. Partindo dessa premissa, a série do Prime Video retrata a história de três personagens distintos, cujos caminhos se cruzam no decorrer dos oito episódios.

O prólogo de Fallout retrata o dia em que a vida na Terra mudou para sempre: o famoso ator Cooper Howard (Walton Goggins) estava em uma festa de aniversário em Los Angeles quando bombas caíram sobre a metrópole estadunidense. Ao se dar conta do que estava acontecendo, Cooper imediatamente foge a cavalo junto com sua filha. 219 anos depois, conhecemos Lucy MacLean (Ella Purnell), uma das habitantes do Refúgio 33, instalação criada pela Vault-Tec para dar segurança às pessoas durante uma guerra nuclear. Supervisionado por seu pai, Hank MacLean (Kyle MacLachlan), o local serve de lar para várias pessoas que nunca sequer viram a luz solar. Ao conseguir autorização do conselho, Lucy se casa com um homem vindo do Refúgio 32. Após a realização da cerimônia, uma tragédia acontece: os visitantes do abrigo vizinho eram, na verdade, saqueadores da superfície. Provocando várias mortes, o ataque é encerrado quando os invasores, liderados por uma misteriosa mulher chamada Moldaver (Sarita Choudhury), sequestram Hank.

Esse evento muda completamente a vida no Refúgio 33: além de precisarem reorganizar toda a estrutura operacional, ainda havia remanescentes dos invasores presos em uma sala. Lucy, por outro lado, só tinha uma coisa em mente: resgatar o seu pai. Contrariando todas as normas, ela consegue ajuda para abrir a porta que sela o abrigo e chega à superfície devastada do planeta. Nesse momento é que se inicia um dos aspectos mais legais da série: a personagem, acostumada a viver em meio a pessoas que seguem regras, vai parar em um local onde não há qualquer tipo de lei ou norma. Apesar disso, ela se mantém fiel aos seus princípios, mesmo quando tem a oportunidade de retribuir o mal que recebeu. Enquanto explora os Ermos em busca de pistas sobre o paradeiro de seu genitor, Lucy recebe a missão de levar o Dr. Siggi Wilzig (Michael Emerson), um cientista que tinha um objeto de grande importância, até Moldaver. A missão, no entanto, não será simples: o pedido para acompanhá-lo acontece em um momento delicado e, para piorar a situação, ele está sendo perseguido por outras pessoas – e é aqui que entram os dois outros personagens principais de Fallout.

Vou falar primeiro de Cooper Howard, que sobreviveu a todos esses anos, mas a exposição à radiação provocou mutações no seu corpo, transformando-o em um Necrótico. Atuando agora como caçador de recompensas, ele é extremamente habilidoso com armas de fogo, porém, precisa constantemente fazer uso de uma substância química para continuar vivo. O Necrótico está atrás do cientista e é capaz de passar por cima de qualquer um para receber a recompensa que estão oferecendo. No decorrer da temporada, acompanhamos diversos flashbacks que exploram o passado de Howard e de sua esposa, Barb (Frances Turner), uma importante executiva da Vault-Tec. Esse arco aborda os diversos mistérios envolvendo a empresa responsável pela construção dos refúgios e, com o passar dos capítulos, as coisas vão se tornando cada vez mais interessantes de se acompanhar, resultando em uma revelação surpreendente no oitavo episódio.

O outro personagem central é Maximus (Aaron Moten), que quando criança sobreviveu a um ataque nuclear e foi resgatado por um integrante da Irmandade do Aço. Agora adulto, ele consegue ser promovido, assume o cargo de escudeiro do Cavaleiro Titus e é enviado em uma missão para tentar localizar o misterioso cientista. Durante a busca, o comportamento de Titus faz com que ele seja atacado por um urso radioativo. Diante de sua postura arrogante, o escudeiro se recusa a oferecer-lhe socorro, provocando a morte do cavaleiro. Maximus então decide ir atrás do alvo sozinho, já sabendo que precisaria de uma boa história para justificar a morte de Titus e o fato de agora estar usando a sua armadura.

O destino faz com que esses três personagens entrem em contato um com o outro, nos levando a conhecer as diversas facetas do rico e complexo universo da série. Isoladamente, os arcos de Lucy e Cooper são os mais envolventes, ficando o de Maximus um pouco atrás. Além do trio, o que segue acontecendo no Refúgio 33 vai se tornando cada vez mais interessante conforme o irmão de Lucy, Norm (Moisés Arias), descobre segredos sobre o que aconteceu no abrigo vizinho e os planos da Vault-Tec para essas instalações. Já Moldaver se torna uma personagem cada vez mais importante na reta final da temporada, embora seu desfecho seja um pouco frustrante.

Com críticas ao capitalismo e ao corporativismo, Fallout entrega uma história sólida, bem desenvolvida e que sabe dosar bem momentos de drama e humor. A abordagem de eventos no presente e passado funciona bem, nos conduzindo a um desfecho surpreendente. O encerramento do último episódio cria um bom gancho para a sequência, mal posso esperar para conferir o que vem por aí. A narrativa é complementada por uma direção e fotografia que conseguem valorizar a estética da série, aliadas a uma trilha sonora espetacular. Percebe-se um cuidado com a parte audiovisual até mesmo nos créditos finais, com cada episódio apresentando uma sequência de cenas em animação.

Considerações finais

Em meio a tantas adaptações que parecem não compreender bem o material de origem, Fallout é um bom exemplo de como criar histórias inéditas dentro de um universo já estabelecido há anos. Mesmo que você não tenha conhecimento sobre a franquia, é possível acompanhar a trama sem problemas, já que a série introduz e desenvolve bem o seu rico, estranho e cativante universo. O capítulo de estreia apresenta bem o trio de protagonistas, o que já foi suficiente para me fazer conectar com a atração: cada um deles possui características e perfis completamente diferentes, é divertido acompanhar suas jornadas.

A ambientação retrofuturista e pós-apocalíptica é extremamente bem trabalhada ao longo dos oito capítulos. Ella Purnell e Walton Goggins são os grandes destaques da temporada, chamando a atenção sempre que estão em cena. Contando com um elenco variado de personagens, trama cheia de surpresas, uma excelente construção de mundo e direção que sabe valorizar os ambientes, a primeira temporada de Fallout é uma grata surpresa.

★★★★☆Ótimo
Criador e editor do Portal E7, Herbert é advogado, amante de games e séries. Gamertag/ID: "HerbertVFV".
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